Nova pesquisa revela a magnitude e a importância estratégica da vasta rede de estradas do Império Romano, um feito de engenharia que moldou a civilização por séculos.
Um estudo recente aprofundou o conhecimento sobre a impressionante rede viária do Império Romano, composta por cerca de 300 mil quilômetros de rotas que atravessavam Europa, Oriente Médio e norte da África. Essa infraestrutura, considerada o primeiro sistema de transportes em escala continental do mundo, foi fundamental para a integração de vastas regiões, facilitando a circulação de pessoas, animais, patógenos, mercadorias e ideias.
As estradas romanas, verdadeiros testemunhos da maestria em engenharia da época, estendiam-se de desertos como os do Marrocos e da Arábia até a Escócia e o Oceano Atlântico. Essa malha terrestre era complementada por rios navegáveis e rotas marítimas, formando um sistema de transporte robusto e eficiente. O arqueólogo clássico Tom Brughmans, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, um dos líderes do estudo publicado na revista Nature Communications, destacou que a infraestrutura proporcionou uma plataforma de dimensões continentais para a circulação e interação.
A construção dessas vias era notável pela sua durabilidade, empregando materiais como pedra britada, argamassa de cal e cascalho. O tráfego era composto principalmente por pessoas a pé ou montadas em animais como cavalos, burros, mulas e camelos, além de carroças e carruagens. Essas estradas não serviam apenas para o deslocamento militar das legiões romanas, mas também para a disseminação de novas ideias, como o cristianismo primitivo, e para as atividades cotidianas, como viagens entre casa e campo e o transporte de produtos para mercados locais.
O Centro da Rede e a Nova Capital
Embora Roma abrigasse o Milliarium Aureum, monumento que marcava o ponto de partida simbólico de todas as estradas, a cidade não era o centro geográfico absoluto da rede. A pesquisa, que combinou dados arqueológicos com imagens aéreas e de satélite, revelou que as capitais provinciais possuíam uma localização estratégica nas estradas de suas respectivas províncias, otimizando a administração e a arrecadação de impostos. Exemplos incluem Ancara (Turquia), Londres (Inglaterra) e Corinto (Grécia).
Surpreendentemente, a análise da circulação dentro da Península Itálica indicou que a estrada mais central acompanhava a costa do Mar Adriático, e não a costa do Mar Tirreno, onde Roma se localiza. A transferência da capital para Constantinopla (atual Istambul) no século IV d.C. pelo imperador Constantino marcou uma nova era. Constantinopla, situada na junção entre Europa e Ásia, demonstrou ser um ponto excepcionalmente central para as viagens terrestres em todo o império, superando Roma em termos de conectividade.
Engenharia e Legado Duradouro
Os engenheiros romanos buscavam traçar estradas o mais retas possível, como a célebre Via Ápia. Contudo, a natureza impunha seus limites, e as rotas adaptavam-se à topografia local, evitando grandes obras de terraplanagem em terrenos acidentados.
A influência da rede viária romana perdurou por mais de dois milênios, com muitas estradas continuando em uso após a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) e do Império Bizantino (1453 d.C.). Em diversas regiões, da Grã-Bretanha ao Oriente Próximo, essas vias foram as principais artérias de comunicação durante a Idade Média e serviram de base para rodovias modernas. Um exemplo notável é a Via Augusta, na Espanha, cujo traçado original é claramente visível na moderna rodovia N-340.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo estudo publicado na revista Nature Communications.
