Paralisia cerebral vai muito além das limitações motoras, impactando diversas áreas do desenvolvimento e exigindo atenção individualizada. A condição, que afeta o cérebro em formação, pode trazer consigo desafios na visão, audição, aprendizado e até mesmo crises convulsivas, demandando um cuidado multiprofissional e contínuo ao longo da vida. O Dia Mundial da Paralisia Cerebral, celebrado nesta terça-feira (6), reforça a importância do acesso a tratamentos, da inclusão e da busca pela autonomia de quem vive com a condição.
A jornada de Aline Messias, 36, com a paralisia cerebral é um exemplo de como a superação de barreiras e o planejamento podem viabilizar a realização de sonhos. Apesar das incertezas e dos questionamentos sobre sua capacidade de ser mãe, ela reorganizou sua casa e adaptou tarefas para cuidar de seu filho Rafael, 3. A conquista de levá-lo sozinha ao cinema pela primeira vez neste ano simboliza a força e a determinação de quem vive com a condição.
A paralisia cerebral é um grupo de condições neurológicas permanentes causadas por lesões ou alterações no cérebro durante a gestação, o parto ou nos primeiros anos de vida. Infecções maternas como rubéola, sífilis e zika, complicações no parto que afetam a oxigenação do bebê, ou infecções graves na infância, como meningite, são algumas das causas conhecidas. A pediatra Anna Dominguez Bohn, presidente do Núcleo de Estudos da Criança com Deficiência da SPSP, explica que a variação na localização e no tamanho da lesão cerebral resulta em manifestações clínicas distintas em cada indivíduo.
Sinais, Diagnóstico e Tratamento Personalizado
Os primeiros sinais da paralisia cerebral geralmente aparecem nos primeiros anos de vida, como atrasos no desenvolvimento motor, rigidez ou flacidez muscular excessiva, fraqueza nos membros, movimentos involuntários e dificuldades de equilíbrio. O diagnóstico, no entanto, é complexo e considera o histórico da gestação, do parto e o desenvolvimento da criança, além da avaliação clínica. Embora a lesão neurológica não possa ser revertida, ela não é progressiva, o que significa que o dano não se agrava com o tempo.
O tratamento da paralisia cerebral é multifacetado e deve ser individualizado. Quanto mais cedo as intervenções começam, maiores as chances de estimular o desenvolvimento e a funcionalidade. Fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, acompanhamento com neuropediatras e ortopedistas, além de auxílio visual e auditivo, são essenciais. Medicamentos podem ser utilizados para controlar sintomas como rigidez muscular e convulsões. Em 2025, o SUS registrou mais de 1,1 milhão de atendimentos relacionados à paralisia cerebral, um aumento de 13% em relação a 2022, segundo o Ministério da Saúde.
Barreiras de Acesso e Custos Indiretos
Apesar do avanço nos atendimentos, garantir uma rotina contínua de cuidados ainda é um desafio no Brasil. A Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência, que inclui 359 Centros Especializados em Reabilitação (CERs), oferece atendimento especializado, mas a oferta de serviços e profissionais não é uniforme em todo o país. A falta de especialistas dificulta o acesso ao acompanhamento necessário.
No setor privado, a ANS eliminou em 2022 o limite de sessões para terapias como fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia para planos regulamentados. Contudo, nem todos os métodos terapêuticos prescritos são obrigatoriamente cobertos, gerando disputas judiciais em alguns casos. Os custos indiretos para as famílias, como deslocamentos frequentes e aquisição de tecnologias assistivas, também representam um obstáculo significativo. Um estudo revelou que quase metade das pessoas com paralisia cerebral não tem acesso a dispositivos de auxílio e a maioria não possui a casa totalmente adaptada.
O impacto financeiro é considerável, com muitos responsáveis precisando reduzir a jornada de trabalho ou abandonar seus empregos para se dedicar aos cuidados. Aline relata que sua mãe precisou deixar o emprego devido à dificuldade em conciliar o trabalho com a rotina de atendimentos da filha. O tratamento no Sesi Ipiranga, obtido por meio de um desconto profissional, foi crucial para seu desenvolvimento de autonomia.
Cuidado Contínuo na Vida Adulta
À medida que as pessoas com paralisia cerebral envelhecem, novas demandas de cuidado surgem. Dores, rigidez muscular, alterações no equilíbrio e redução da mobilidade podem exigir novas estratégias. A transição dos serviços pediátricos para os de adultos apresenta desafios, incluindo a continuidade do atendimento e a adaptação às novas necessidades, como saúde sexual e reprodutiva. Um cuidado integral e adaptado às especificidades de cada indivíduo é fundamental para garantir sua participação nas decisões sobre a própria vida e para promover sua autonomia.
