Baixa massa muscular se revela um fator de risco para pacientes com câncer
A saúde muscular tem ganhado destaque como um componente crucial para o bem-estar geral, e sua importância se estende significativamente para pacientes em tratamento oncológico. Pesquisas recentes indicam que pacientes com pior qualidade muscular e outros biomarcadores associados apresentam um risco elevado de mortalidade e complicações durante a internação hospitalar. Um estudo do Hospital Israelita Albert Einstein, divulgado pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), analisou 104 pacientes com tumores sólidos e identificou correlações preocupantes.
A investigação utilizou o ângulo de fase, obtido por bioimpedância, e a relação ureia/creatinina, um marcador de catabolismo muscular, para avaliar a saúde muscular e seus desfechos clínicos. A bioimpedância é um método não invasivo e acessível que mede a composição corporal, fornecendo o ângulo de fase como um indicador da integridade celular e qualidade muscular. Quanto maior o ângulo de fase, melhor a condição muscular e nutricional das células.
Paralelamente, a relação ureia/creatinina, calculada a partir de exames laboratoriais de rotina, pode sinalizar um estado de catabolismo muscular acentuado. Alterações nesse índice estão ligadas a um tempo de internação mais prolongado e a um maior número de complicações. Essas descobertas corroboram evidências crescentes sobre o impacto positivo da preservação da massa muscular na resposta ao tratamento oncológico, incluindo menor toxicidade a quimioterapias, menos fadiga e melhor adesão terapêutica.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Agência Einstein e pela revista científica Discover Oncology.
A importância da composição corporal na luta contra o câncer
A relação entre baixa massa muscular e um prognóstico desfavorável tem sido observada em diferentes contextos oncológicos. Um estudo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, publicado na Discover Oncology, associou a redução da massa muscular a uma menor probabilidade de sobrevivência em mulheres com câncer de mama, independentemente da idade ou estágio da doença.
A nutricionista Mirele Savegnago Mialich Grecco, autora do estudo da USP, explica que a massa muscular não se limita à força e mobilidade, mas também desempenha funções vitais na regulação inflamatória, no metabolismo energético e na resposta ao tratamento oncológico. O músculo, considerado um órgão imune, tem seu papel reduzido com a perda de massa, o que pode aumentar o risco de infecções, uma preocupação especial em pacientes imunossuprimidos pelo tratamento.
É fundamental notar que a perda muscular pode não ser evidente apenas pela balança. O ganho de peso, muitas vezes associado ao acúmulo de gordura ou retenção de líquidos, pode mascarar a perda progressiva de massa magra. Essa condição, conhecida como obesidade sarcopênica, ressalta a necessidade de avaliações mais detalhadas da composição corporal.
Métodos de avaliação e estratégias de preservação muscular
Embora exames de imagem como tomografia e ressonância magnética sejam referências para a avaliação da composição corporal, seus custos elevados limitam o acesso, especialmente na rede pública de saúde. Por isso, a busca por métodos mais acessíveis, como a bioimpedância e biomarcadores laboratoriais simples, como a relação ureia/creatinina, tem se intensificado. A ideia é democratizar a identificação de pacientes em maior risco.
Para combater a perda de massa muscular durante o tratamento oncológico, recomenda-se a prática de exercícios resistidos, como a musculação, a adequação da ingestão proteica, a suplementação nutricional quando indicada e a atenção à qualidade do sono. Essas medidas são essenciais para preservar a musculatura, mitigar efeitos adversos dos tratamentos e melhorar a qualidade de vida do paciente.
O médico Diogo Toledo, coordenador do estudo do Einstein, reforça que a conscientização sobre a importância do músculo vai além da estética. Ele é um influenciador direto na resposta ao tratamento, na recuperação e na qualidade de vida, permitindo que os pacientes enfrentem os desafios da doença em melhores condições.