A década de 80 revisitada pela tecnologia
A recente onda de filtros de inteligência artificial que transformam fotos em personagens com a estética dos anos 1980 invadiu as redes sociais, trazendo de volta penteados volumosos e jaquetas coloridas. Inspirada em parte por produções como a série “Stranger Things”, essa nostalgia digital evoca uma imagem idealizada da década. No entanto, para quem vivenciou os anos 1980 no Brasil, a realidade era bem diferente e menos glamourosa, especialmente quando o assunto era comida.
A experiência de um adolescente em São Paulo naquela época revela um cotidiano marcado por desafios econômicos que impactavam diretamente a mesa das famílias. A hiperinflação era uma constante, forçando compras mensais de alimentos em um cenário de preços voláteis e filas quilométricas em supermercados. A necessidade de adquirir grandes quantidades de produtos levou à compra de freezers gigantes, um item incomum para residências comuns. As informações foram reunidas a partir de relatos pessoais e análises históricas sobre a economia brasileira da época.
Desabastecimento e a qualidade em pauta
A especulação econômica resultava em desabastecimento frequente. A falta de produtos básicos como feijão era comum, levando à necessidade de importar itens como cerveja uruguaia em momentos de escassez da produção nacional. Além disso, a qualidade dos alimentos era uma preocupação. A pecuária brasileira ainda não havia alcançado os padrões internacionais, resultando em carne de menor qualidade e macarrão que cozinhava em excesso, empapando facilmente. A chegada do autêntico espaguete italiano, que não desmancha ao cozinhar, só seria possível com a abertura comercial dos anos 1990.
Riscos e preconceitos na culinária
A década de 1980 também trouxe preocupações sanitárias inesperadas. Em 1986, leite em pó com suspeita de contaminação radioativa, proveniente da Europa após o acidente nuclear de Tchernóbil, foi desovado no mercado brasileiro. No âmbito cultural e gastronômico, o preconceito ainda ditava hábitos. Restaurantes japoneses, hoje populares, só começaram a ganhar espaço quando foram considerados “cool” pelos americanos, pois o paulistano médio nutria aversão a peixe cru até meados da década. A culinária árabe, por outro lado, possuía maior aceitação, embora pessoas de origem libanesa e síria fossem jocosamente chamadas de “turcos”, um reflexo da nomenclatura de passaportes históricos.
Uma receita para recordar
Para ilustrar a culinária da época, uma receita de sobremesa de abacaxi, encontrada em um caderno antigo, oferece um vislumbre do que era comum nas cozinhas. O uso de pó de pudim, considerado estranho hoje, era uma prática generalizada. A receita, que requer cerca de três horas e meia para o preparo, envolve macerar abacaxi com água e açúcar, coar o líquido, engrossar com maisena e pó de pudim, e finalizar com leite condensado e creme de leite.
Sobremesa de Abacaxi dos Anos 80
Rendimento: 1 pudim grande
Tempo de preparo: 3 horas e 30 minutos
Dificuldade: Fácil
Ingredientes
½ copo de água
1 ½ copos de açúcar
1 colher (sopa) de maisena
1 pacote de pudim sabor baunilha
1 lata de leite condensado
½ lata de creme de leite
1 abacaxi picado
Modo de preparo
Em uma tigela, junte o abacaxi picado, a água e o açúcar. Deixe a mistura macerar por aproximadamente 3 horas. Coe o líquido em uma panela (descarte os sólidos). Ferva o caldo e junte a maisena e o pó de pudim. Misture até começar a encorpar. Retire do fogo e junte o leite condensado e o creme. Transfira para uma vasilha e guarde na geladeira até firmar.
