Jovens brasileiros mostram maior índice de tabagismo, impulsionados pelo uso de cigarros eletrônicos.
A geração Z, composta por indivíduos nascidos entre 1997 e 2012, apresenta a maior taxa de tabagismo no Brasil, com 19% de fumantes ativos entre 16 e 24 anos. Este índice supera a média geral da população (17%) e grupos etários mais velhos, conforme aponta uma pesquisa recente do A.C. Camargo Cancer Center. O estudo, que entrevistou 2.015 pessoas em todo o país, revela um cenário preocupante que pode sobrecarregar o sistema de saúde pública nas próximas décadas com o aumento de doenças crônicas e cânceres.
Especialistas alertam que o percentual elevado de fumantes jovens pode se traduzir em um futuro com maior demanda por tratamentos médicos. Enquanto o Brasil busca reverter o tabagismo desde os anos 1990, a popularização dos cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes e pods, surge como um dos principais fatores que sustentam esse fenômeno. Em contrapartida, países como o Reino Unido já implementam medidas drásticas, como a proibição da venda de cigarros para nascidos a partir de 2009.
Dados de pesquisas como a Vigitel e a PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) reforçam essa tendência. A PeNSE, realizada pelo IBGE, indicou uma queda na experimentação de cigarros comuns entre adolescentes de 13 a 17 anos, mas um aumento expressivo no contato com cigarros eletrônicos, que saltou de 16,8% para 29,6% entre 2019 e 2024. Já a Vigitel, em 2024, registrou um leve aumento na população adulta fumante no país, primeira elevação em mais de duas décadas, refletindo a participação da geração Z nesse grupo.
A influência da internet e a falsa sensação de segurança dos vapes
O oncologista Helano Freitas, do A.C. Camargo Cancer Center, destaca a influência das redes sociais e a percepção equivocada de que os cigarros eletrônicos são menos prejudiciais. Ele aponta que a lógica algorítmica das plataformas digitais expõe os jovens a conteúdos de forma velada, dificultando o controle parental. A ideia de que vape não é cigarro leva muitos a desrespeitarem, sem perceber, as leis antifumo, mesmo com pesquisas robustas indicando potenciais riscos à saúde.
A pesquisa do A.C. Camargo também revela que o tabagismo é mais prevalente entre homens (21%) do que entre mulheres (13%). O hábito diminui com o aumento do nível de escolaridade, sendo maior entre aqueles com ensino fundamental (21%) e menor entre os com ensino superior (12%). A região Sul do Brasil concentra o maior número de fumantes (22%), seguida pelo Sudeste (19%).
Dependência precoce e os desafios da cessação do tabagismo
A introdução ao tabagismo na juventude, especialmente com o uso de vapes que contêm dosagens de nicotina muito superiores às do cigarro comum, eleva a dificuldade de cessação no futuro. O pneumologista João Carlos Jesus, do Hospital Vera Cruz, explica que o cérebro em desenvolvimento é mais suscetível à dependência de nicotina, tornando a interrupção do hábito um desafio considerável. A dosagem de nicotina em um dia de uso de vape pode ser equivalente a mais de 100 cigarros comuns, um patamar que ultrapassa os limites das terapias de reposição de nicotina disponíveis.
Para combater esse problema, especialistas defendem uma comunicação massiva sobre os riscos dos cigarros eletrônicos e o estímulo a hábitos saudáveis. O Ministério da Saúde, por meio do Programa Saúde na Escola e materiais como o Guia de Bolso de Prevenção ao Uso de Tabaco, busca atuar na prevenção. Fatores como o baixo preço dos produtos, promoções online e aditivos que tornam os fumígenos mais atrativos também são apontados pelo Inca como contribuintes para o interesse dos jovens.
O tabagismo está associado a diversas doenças crônicas não transmissíveis e a pelo menos 24 tipos de câncer. Os gastos com tratamentos de doenças relacionadas ao tabaco superam em mais de dez vezes o valor arrecadado com impostos sobre esses produtos, evidenciando o impacto financeiro e social do problema para o país.
