Ameaças emergentes na América do Sul
O caso de uma mulher de 65 anos em Rosário, Argentina, que faleceu em decorrência da Febre Hemorrágica Argentina (FHA), uma doença rara e grave transmitida por roedores, acendeu um alerta entre especialistas em doenças infecciosas. A FHA, que pode causar hemorragias internas, convulsões e coma, tem apresentado um ressurgimento alarmante na região, expandindo-se para áreas onde antes não era comum. Essa expansão, aliada ao aumento expressivo de casos de dengue em diversos países sul-americanos, aponta para um cenário de crescente risco de zoonoses, doenças que saltam de animais para humanos, potencialmente impulsionando futuras pandemias.
Cientistas alertam que a fragmentação de habitats animais, a degradação ambiental e as mudanças climáticas estão criando condições propícias para o aumento da frequência e da abrangência das zoonoses. Animais portadores de doenças, como os roedores transmissores da FHA, são forçados a migrar para novas áreas devido às alterações climáticas, entrando em contato com espécies e populações humanas com as quais antes não interagiam. Um estudo de 2022 indicou que mais da metade das doenças patogênicas conhecidas em humanos podem ser agravadas pelas alterações climáticas, enquanto atividades humanas como agricultura e urbanização aproximam ainda mais as pessoas desses reservatórios de doenças.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por fontes como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) e estudos universitários sobre a disseminação de enfermidades na América do Sul.
Um ressurgimento inesperado
A FHA, que historicamente afetava principalmente trabalhadores rurais em áreas específicas da Argentina, tem mostrado um comportamento atípico. O caso da paciente de Rosário é emblemático: ela residia em área urbana e não tinha ligação com atividades rurais. Este padrão se reflete nos números oficiais: em 2022, a Argentina registrou quase 60 casos confirmados de FHA, um número três vezes maior do que o registrado cinco anos antes. Surtos em 2024 e 2025 já resultaram na morte de pelo menos nove pessoas. Esse ressurgimento desafia as noções anteriores sobre a distribuição geográfica e o perfil das vítimas da doença.
Marcela Uhart, veterinária e pesquisadora da Universidade da Califórnia em Davis, recorda que a FHA já foi um problema significativo na Argentina nas décadas de 1970 e 1980, mas a introdução de uma vacina e o desenvolvimento de tratamentos eficazes com plasma reduziram drasticamente os casos e a mortalidade a partir da década de 1990. No entanto, a percepção de que os números voltaram a subir nos últimos anos trouxe surpresa e preocupação à comunidade científica.
Mudanças climáticas e expansão urbana como vetores
A expansão urbana e as alterações no uso do solo são apontadas como fatores cruciais para o aumento recente dos casos de FHA em áreas como San Nicolás de los Arroyos. O crescimento da cidade em direção a áreas antes rurais e a proximidade de condomínios com campos abertos criam novas interfaces entre humanos e roedores portadores do vírus. Essa dinâmica é observada em toda a Argentina e levanta a hipótese de que as mudanças ambientais e climáticas estejam impulsionando a disseminação da doença.
Pesquisas recentes, incluindo modelos desenvolvidos por Pranav Kulkarni e Marcela Uhart, buscam prever o risco humano associado aos movimentos de roedores portadores de arenavírus sul-americanos. Os estudos indicam que alterações na temperatura, precipitação e padrões climáticos sazonais estão tornando algumas regiões mais propícias para esses animais, enquanto outras se tornam potenciais novos focos de propagação. Embora muitos desses vírus não se espalhem facilmente entre humanos, a compreensão de sua dinâmica é fundamental para antecipar e mitigar futuras ameaças globais à saúde.
Dengue e outras zoonoses em ascensão
O cenário de doenças infecciosas emergentes na América do Sul não se restringe à FHA. A dengue, transmitida por mosquitos, é outra enfermidade que tem apresentado crescimento alarmante na região, associado à degradação ambiental e ao aquecimento global. Desde o início de 2024, mais de dez milhões de casos e mais de 16 mil mortes relacionadas à dengue foram reportadas à Organização Mundial da Saúde, com estimativas apontando para números ainda maiores. Doenças como chikungunya e febre amarela também têm expandido seu alcance geográfico em decorrência das mudanças climáticas.
A vigilância de enfermidades menos conhecidas, como a FHA, que ressurgiram após períodos de relativa obscuridade, torna-se cada vez mais crucial. A capacidade de prever como as mudanças climáticas e a atividade humana afetam a disseminação de enfermidades pode ser a chave para que autoridades de saúde detectem surtos antes que se transformem em pandemias.
