Estudo preliminar aponta para rejuvenescimento molecular de corações transplantados
Um estudo ainda em fase inicial sugere que corações de doadores mais velhos podem apresentar um processo de rejuvenescimento parcial ao serem transplantados para receptores mais jovens. Essa adaptação biológica, onde o órgão transplantado se assemelha mais ao organismo do receptor, poderia expandir significativamente as opções de doação de órgãos. De forma inversa, órgãos de doadores jovens transplantados em pacientes mais idosos tenderiam a mostrar sinais de envelhecimento acelerado.
As descobertas são resultado de um trabalho coordenado por Jesse Poganik, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. A versão preliminar da pesquisa foi disponibilizada na plataforma bioRxiv e aguarda o processo de revisão por pares para publicação em periódico científico. Detalhes sobre o estudo foram divulgados pela revista Nature.
As primeiras evidências surgiram de experimentos com camundongos, onde a equipe observou fenômenos semelhantes aos verificados posteriormente em um pequeno grupo de pacientes humanos submetidos a transplantes cardíacos. Por enquanto, as conclusões se restringem a transplantes de coração.
O experimento com roedores e a análise molecular
No estudo com camundongos, os pesquisadores conectaram corações de doadores de diferentes idades – desde jovens de três meses até animais com mais de um ano e meio – aos sistemas circulatórios de roedores receptores de variadas faixas etárias. Após um período de funcionamento, os órgãos transplantados foram analisados em busca de marcadores moleculares de envelhecimento nas células cardíacas.
Foram examinados a expressão gênica, que indica a atividade de genes na produção de proteínas, e a metilação, um processo epigenético que pode ‘desligar’ ou ‘ligar’ genes e que também muda com o envelhecimento. Utilizando aprendizado de máquina, a equipe de Poganik observou que os marcadores de envelhecimento nos corações transplantados tendiam a se alinhar com os do receptor. Um coração de doador mais velho em um receptor jovem parecia rejuvenescer molecularmente, enquanto o oposto ocorria quando um órgão jovem ia para um receptor mais velho.
Validação em humanos e implicações futuras
O passo seguinte foi a validação dos achados em humanos, utilizando dados de biópsias de corações transplantados do Brigham and Women’s Hospital. Foram analisados 11 casos com diferenças significativas de idade entre doador e receptor, com intervalos variando de 8 a 50 anos. Os resultados em humanos replicaram os observados em camundongos.
“A coisa mais impressionante é que verificamos exatamente os mesmos efeitos que tínhamos visto nos camundongos”, afirmou Poganik em entrevista à Nature. Ele ressalta, contudo, que o rejuvenescimento não é total e que todos os órgãos transplantados sofrem algum estresse inerente ao processo. Algumas características funcionais do órgão também podem permanecer mais alinhadas à idade do doador original.
Atualmente, a recomendação para doação de coração prioriza doadores com menos de 45 anos. Se confirmada pela comunidade científica, esta nova pesquisa poderá levar a uma ampliação desse limite de idade, potencialmente salvando mais vidas ao aumentar a disponibilidade de órgãos para transplante.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista científica Nature e pela plataforma bioRxiv.
