Nova gestão rompe com pacto multilateral e gera preocupações em ativistas.
A Colômbia anunciou nesta quinta-feira (17) sua saída da Coalizão pela Igualdade de Direitos, um grupo internacional formado por mais de 40 países com o objetivo de promover os direitos da população LGBTQIA+. A nação sul-americana, que até então compartilhava a presidência do bloco com a Espanha, adota essa medida sob o governo de Abelardo de la Espriella, eleito em junho deste ano e conhecido por suas posições conservadoras.
Em comunicado, o vice-ministro de Relações Exteriores, Pedro Agustín Roa, afirmou que a retirada não representa um retrocesso nos direitos da comunidade LGBTI+ no país. Segundo ele, a Colômbia possui um arcabouço constitucional, políticas públicas e decisões judiciais robustas que protegem as minorias com base na orientação sexual. A decisão foi justificada como um “exercício de priorização”, indicando que a participação no mecanismo internacional não era considerada prioritária para a atual administração. Roa agradeceu à Espanha e às organizações da sociedade civil com as quais a Colômbia dividiria a presidência até 2027.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Ministério das Relações Exteriores da Colômbia e reportagens de veículos de comunicação.
Contexto Político e Declarações Anteriores
A decisão pela saída da coalizão internacional ecoa as promessas de campanha de Espriella, que defendeu uma “contrarrevolução cultural”. Em maio deste ano, o então candidato criticou o que chamou de “ideologia de gênero” nas escolas e a forma como a história era contada. Sua posição sobre a adoção por casais homoafetivos também gerou debate; em abril, ele declarou que, embora não tivesse aprovado o direito antes de ter filhos, respeitaria a decisão caso eleito, mas posteriormente ponderou que “uma criança precisa de uma divisão de papéis para crescer com educação adequada e defender os princípios e valores fundadores do judaico-cristianismo”.
Agenda Conservadora e Projetos Legislativos
Desde a posse de Espriella, o governo tem sinalizado uma agenda conservadora. A chamada Bancada Pró-vida no Congresso, composta por mais de 50 políticos, apresentou projetos de lei que visam proteger a vida “desde a concepção”, o que poderia tornar o aborto ilegal, atualmente permitido na Colômbia até a 24ª semana de gestação. Outra proposta busca proibir tratamentos médicos de afirmação de gênero para crianças e adolescentes.
O deputado Luis Miguel López, um dos porta-vozes do grupo conservador, celebrou a saída da Colômbia da coalizão, afirmando nas redes sociais que o país pode defender a dignidade de todos “sem submeter sua política externa a agendas ideológicas”, e que a decisão não implica em ignorar ou violar direitos.
Preocupação de Ativistas e Casos Internacionais
Em contrapartida, a Caribe Afirmativo, organização da sociedade civil colombiana que também co-presidia a coalizão, expressou “preocupação” com a decisão. Em nota publicada nas redes sociais, o grupo alertou que a retirada impõe “limites e obstáculos diretos à defesa dos direitos LGBTIQ+ e ao cumprimento de seus compromissos internacionais”, especialmente considerando que a Colômbia assumiria a copresidência do bloco em um momento de retrocessos globais nos direitos da comunidade.
A decisão colombiana se insere em um cenário internacional onde outros países também apresentaram posturas divergentes em relação à promoção dos direitos LGBT+. A Argentina, sob a presidência de Javier Milei, tem buscado minar discussões sobre diversidade em sua agenda internacional desde 2023. O Brasil se juntou à Coalizão pela Igualdade de Direitos em 2023, após o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder. Os Estados Unidos, por sua vez, saíram da entidade em 2025, durante o segundo mandato de Donald Trump, apesar de terem sido membros fundadores em 2016.
