A praticidade das amizades de baixa manutenção na vida adulta
Na rotina agitada da vida moderna, onde compromissos profissionais, familiares e pessoais se acumulam, manter amizades pode se tornar um desafio. Surge então o conceito de “amizade de baixa manutenção”, popularizado nas redes sociais, que descreve relacionamentos onde o contato e os encontros não são frequentes, mas o vínculo afetivo se mantém intacto. Para Lilian Sá, psicóloga e advogada de 49 anos, com uma agenda repleta de atendimentos, atividades físicas e responsabilidades familiares, essa modalidade se tornou uma estratégia para preservar laços sem a pressão de uma interação constante. “A gente conversa quando dá, mas a faísca está ali quando nos encontramos”, relata Sá, que brinca ao questionar se, na vida adulta, não seria esse o tipo de amizade mais comum.
A definição de amizade de baixa manutenção, no entanto, varia consideravelmente entre as pessoas. Enquanto para alguns um mês sem contato é aceitável, para outros esse período pode se estender por meses ou até um ano, com trocas pontuais de mensagens ou memes sendo suficientes para manter a conexão. Alana Anijar, psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC), explica que o nível de exigência de uma amizade é subjetivo e depende da percepção individual. “É aquela amizade que eu não tenho o peso de ter que fazer a manutenção constante. Que, embora eu não tenha tempo de ver ou mandar mensagem com frequência, se mantém saudável. O afeto e a conexão estão ali”, define Anijar.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por relatos de especialistas e vivências pessoais.
O perigo da superficialidade e o reflexo da sociedade de consumo
Apesar da praticidade que a amizade de baixa manutenção pode oferecer, especialistas como a psicanalista Ingrid Gerolimich alertam para o risco de que o termo se torne uma justificativa para a preguiça de se relacionar. “A gente pensa: ‘Existe isso, então não me cobre, pois não posso me doar muito’”, observa Gerolimich, que vê no conceito uma expressão da sociedade de consumo e descarte, onde tudo é rápido e superficial. Ela argumenta que, historicamente, sempre houve a possibilidade de se dedicar mais ou menos às relações, mas que essa nomenclatura pode validar uma tendência preocupante de evitar conexões profundas.
Gustavo Lima, corretor de seguros de 28 anos, concorda com a visão de Gerolimich, classificando a amizade de baixa manutenção como um “sintoma da liquidez das relações de hoje”. Ele a relaciona ao excesso das redes sociais e a um receio geral de compromissos e da profundidade nas interações. “Amizade é diferente de não ter tempo. Uma amizade que não tem manutenção acaba morrendo”, afirma Lima, questionando como um amigo pode oferecer apoio ou se manter presente na vida do outro sem um mínimo de contato e troca.
A necessidade de cuidado e alinhamento nas amizades
Psicólogas ressaltam que, como qualquer relacionamento, a amizade requer dedicação e tempo, seja online ou presencial. Gerolimich defende que a amizade pode ser encarada como algo terapêutico, uma fonte de trocas e suporte mútuo, mas que isso se constrói no dia a dia. A ausência de resposta a mensagens, por exemplo, pode levar à diminuição das tentativas de contato, enfraquecendo o vínculo. Anijar complementa que o nível de investimento necessário para manter uma amizade sustentável varia conforme a realidade, o estilo de vida e a personalidade de cada indivíduo, enfatizando a importância do autoconhecimento e da coerência entre expectativas e entrega.
A falta de alinhamento nas expectativas pode gerar conflitos. Lilian Sá relata ter amigos que cobram respostas mais rápidas, muitas vezes pessoas com rotinas mais flexíveis. Ela, que vive em São Paulo há 24 anos e mantém amigas em sua cidade natal, Minas Gerais, reconhece que a distância e a rotina limitam os encontros, mas acredita que “não existe alta ou baixa manutenção, existe o que é possível naquele momento”. Lima, por sua vez, considera que responder mensagens faz parte da dinâmica online, mas entende que o ritmo de cada um deve ser respeitado, desde que haja uma tentativa de manter o contato presencial ou por outros meios.
A psicóloga Alana Anijar aponta que a amizade de baixa manutenção pode ser benéfica para pessoas com rotinas intensas ou que vivem distantes geograficamente. No entanto, ela faz uma ressalva crucial: a relação só é saudável se funcionar para ambas as partes. “Se só funciona para um lado, então não faz sentido. Às vezes, nos escondemos atrás do discurso de baixa manutenção porque não queremos abrir mão de nada para manter relações”, alerta Anijar.
Ingrid Gerolimich observa um aumento no isolamento social, especialmente após a pandemia, onde o cansaço pode levar ao desejo de desmarcar encontros. Para ela, cultivar amizades é essencial para o manejo social e para combater a solidão, reforçando a ideia de que, embora a rotina seja um fator, a intenção e o esforço em manter os laços são fundamentais.
