Claudio Lottenberg, possível futuro ministro da Saúde, foca em gestão técnica e evita polêmicas sobre a pandemia.
O oftalmologista Claudio Lottenberg, 66, nome cogitado para chefiar o Ministério da Saúde em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), declarou que prefere tratar a condução da pandemia de Covid-19 pela gestão de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, como um “capítulo superado”. Lottenberg, que já foi cotado para a pasta em 2020, criticou a abordagem negacionista e a falta de ferramentas adequadas para a tomada de decisões em momentos de crise, mas enfatiza a necessidade de olhar para o futuro.
Em entrevista exclusiva, Lottenberg afirmou que, caso assuma o cargo, priorizará uma gestão técnica e embasada em evidências científicas. Essa postura, segundo ele, independe de pressões da base aliada de Flávio Bolsonaro, que inclui setores com discursos antivacina. A indicação de Lottenberg por aliados de Flávio é vista como uma estratégia para blindar a campanha contra críticas à conduta negacionista de Jair Bolsonaro durante a pandemia. No entanto, há especulações de que a função de Lottenberg possa ser temporária, apenas para a campanha eleitoral.
Com um currículo que inclui passagens pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo em 2005, presidência do Hospital Israelita Albert Einstein e liderança do UnitedHealth Group no Brasil, Lottenberg licenciou-se de sua posição no conselho deliberativo do Einstein em 1º de setembro para preservar a neutralidade política da instituição.
Gestão técnica e prioridades para o SUS
Lottenberg detalhou a visão de Flávio Bolsonaro para a área da saúde, que se baseia em uma gestão técnica e na qualidade da informação científica. A proposta é aproximar o SUS do paciente, utilizando modelos digitais e mecanismos de antecipação de problemas. A otimização dos recursos, mesmo que limitados, é um ponto central, com a eleição de prioridades como o fortalecimento da atenção básica e a organização da atenção especializada por regiões. A integração de dados, incluindo o prontuário eletrônico único, é vista como fundamental para aprimorar a assistência e o uso eficiente dos recursos.
Em relação a possíveis cortes de recursos na saúde, Lottenberg esclareceu que a ênfase de Flávio Bolsonaro reside na adequação do uso do orçamento existente, e não em sua redução. A ideia é fazer mais com o que já se tem, focando em eficiência e priorização.
Diálogo e ciência em pautas sensíveis
Sobre a necessidade de lidar com a base conservadora no Congresso em temas como direitos sexuais e reprodutivos, Lottenberg defende a maturidade, a sensibilização e o diálogo pautado pelo conhecimento científico. Ele exemplifica com sua experiência ao lidar com pacientes de diferentes crenças, ressaltando que o diálogo é essencial, mesmo quando há divergências de pensamento. A ciência, segundo ele, não pode ser menosprezada, embora reconheça a complexidade e a imprevisibilidade de situações como a pandemia.
Lottenberg reitera seu compromisso com a atuação baseada em evidências científicas, princípio que o norteou em toda sua carreira, seja na esfera privada ou pública. Ele assegura que não abrirá mão de seus princípios, mesmo que isso contrarie setores da base aliada.
Visão sobre o futuro da saúde no Brasil
O futuro ministro abordou a questão do envelhecimento populacional, destacando a necessidade de políticas interministeriais e uma discussão mais ampla sobre seguridade social, custos e capacidade contributiva dos cidadãos. A saúde mental, outro gargalo do SUS, também foi citada, com a observação de que a pandemia ajudou a quebrar tabus sobre depressão e ansiedade, mas ainda há resistência em discutir abertamente o tema.
Comparando os planos de governo de Lula e Flávio Bolsonaro para a saúde, Lottenberg aponta a capacidade executiva e a visão diagnóstica como diferenciais. Ele critica a abordagem de “tratar sintomas” e defende um exame mais aprofundado das causas dos problemas de saúde no país, comparando a situação a um médico que primeiro examina o paciente antes de receitar um remédio para cólica.
A regionalização da saúde é vista como uma saída para os problemas, mas exige um pacto colaborativo entre o Ministério da Saúde, estados e municípios, com diálogo constante com os conselhos de secretários de saúde. A referência ao “padrão Einstein” por Flávio Bolsonaro, segundo Lottenberg, significa a entrega de uma medicina de qualidade, segura, com justiça social, equidade e segurança ao paciente, inspirada no modelo de excelência do hospital.
