A doença que se acreditava controlada volta a assombrar os Estados Unidos, com comunidades amish entre as mais atingidas. O sarampo, que pode causar complicações graves como surdez, inchaço cerebral e até a morte, está circulando em 45 estados americanos em 2026, reacendendo discussões sobre a importância da imunização.
A família Miller, residente em uma comunidade amish na Pensilvânia, viveu o pesadelo do sarampo em primeira mão. O que parecia ser uma simples infecção de garganta evoluiu para um diagnóstico de sarampo após a confirmação de casos em um leilão de cavalos frequentado pelo filho adolescente e pelo pai. A doença se alastrou rapidamente, infectando seis dos sete filhos e a mãe, Emma Miller. Apenas o pai e uma filha, ambos vacinados, escaparam da contaminação. A experiência pessoal transformou a visão de Emma sobre a doença e a vacinação.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e por autoridades de saúde estaduais da Pensilvânia e Ohio.
Barreiras e Crenças: Por que o Sarampo se Espalha entre os Amish?
Embora frequentemente retratados como resistentes à medicina moderna por motivos religiosos, a realidade da recusa vacinal entre os amish é mais multifacetada. Muitos membros da comunidade, assim como grande parte da população em geral, nunca haviam presenciado um caso de sarampo e subestimavam a gravidade do vírus. A crença de que a doença não os alcançaria se mostrou equivocada. A baixa cobertura vacinal também é influenciada por fatores práticos: a ausência de seguro de saúde privado e o costume de pagar por serviços médicos em dinheiro criam barreiras financeiras e logísticas para o acesso à vacinação.
O sarampo foi declarado eliminado nos Estados Unidos em 2000, mas a falta de erradicação completa abriu a porta para seu retorno. A hesitação vacinal, alimentada por figuras públicas que questionam a segurança e eficácia das vacinas, contribui para o aumento dos surtos. Na Pensilvânia, o condado de Lancaster, com uma expressiva população amish, concentra cerca de 40% dos casos reportados, que já resultaram em internações e mortes, embora haja divergências nos números oficiais entre o estado e o CDC.
O Cotidiano Afetado e a Busca por Soluções
A doença impõe um fardo severo às famílias afetadas. Emma Miller, mesmo doente, precisou cuidar dos filhos, incluindo um bebê, com o auxílio de analgésicos para a febre. A filha mais velha assumiu tarefas domésticas e o preparo de alimentos. Vizinhos oferecem apoio, deixando comida na porta, e a família se isola para evitar a propagação do vírus, o que inclui ausências em cultos religiosos. Apesar das precauções, a doença atingiu primos que visitaram a família antes da confirmação do sarampo, evidenciando a facilidade de contágio.
Profissionais de saúde como Stephanie Truckey, enfermeira que atua em comunidades amish em Ohio, Pensilvânia e Indiana através do programa “Angels to Amish”, observam o afastamento de parte da comunidade dos serviços de saúde, acentuado durante a pandemia de Covid-19 devido à aversão a tecnologias como a telemedicina. Truckey realiza visitas domiciliares e, embora não aplique vacinas contra o sarampo, orienta os pacientes a buscarem a imunização quando questionada.
A decisão de vacinar ou não é frequentemente pessoal e influenciada pela tradição familiar. Em algumas escolas amish, como a Hickory Grove, não há exigência de vacinação para matrícula, diferentemente das escolas públicas. No entanto, a experiência com o sarampo tem levado muitos a reavaliar suas escolhas. Emma Miller, após vivenciar a exaustão da doença em sua família, decidiu vacinar todos os seus filhos, impulsionada pelo marido vacinado e pela própria experiência debilitante com o vírus.
Apesar de estarem em grande parte isoladas dos debates públicos sobre vacinas, por não consumirem mídia tradicional, as comunidades amish não estão imunes às consequências da desinformação e da subestimação de doenças infecciosas. O surto atual serve como um alerta contundente sobre a importância da vacinação para a proteção individual e coletiva, mesmo em grupos que buscam manter um estilo de vida mais tradicional.
