O alto custo de uma sátira climática
Tom Cruise, conhecido por transformar filmes em eventos de bilheteria com sucessos como “Top Gun: Maverick” e a franquia “Missão: Impossível”, apostou em um caminho radicalmente diferente em “Digger”. No filme, ele interpreta Digger Rockwell, um magnata texano do petróleo envelhecido por próteses e maquiagem. A parceria com o aclamado diretor Alejandro G. Iñárritu, de “Birdman” e “O Regresso”, visava criar uma sátira sobre a indústria petrolífera e a crise climática que se tornasse um grande lançamento de estúdio. No entanto, o resultado foi um desempenho decepcionante nas bilheterias.
Segundo a revista especializada Variety, “Digger” arrecadou apenas US$ 8 milhões em seu primeiro fim de semana nos Estados Unidos e Canadá, somando US$ 12 milhões internacionalmente, totalizando aproximadamente US$ 20 milhões globalmente. O filme, que originalmente teve um orçamento aprovado de US$ 125 milhões, viu seus custos crescerem durante a produção, com estimativas finais entre US$ 160 milhões e US$ 180 milhões. Adicionalmente, o estúdio investiu cerca de US$ 100 milhões em marketing. Para atingir o ponto de equilíbrio, as estimativas variam entre US$ 300 milhões (segundo a Warner) e US$ 350 milhões em arrecadação mundial. É importante notar que a receita de bilheteria é dividida entre estúdios e cinemas, com estes últimos ficando com cerca de metade do valor dos ingressos, o que exige uma arrecadação bruta significativamente maior para cobrir os custos.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Variety e pelo New York Times.
Críticas apontam falhas na execução da sátira
A recepção crítica de “Digger” ajuda a explicar a discrepância entre a expectativa e o resultado. Críticos de publicações como Variety, New York Times e The Guardian, apesar de abordarem o filme de ângulos distintos, concordam que a obra possui ambição, mas falha em traduzi-la em uma sátira eficaz. Owen Gleiberman, da Variety, compara a tentativa a um “Dr. Fantástico” da crise climática, mas aponta a falta da inteligência cômica de Stanley Kubrick, criticando Iñárritu por insistir na mensagem e transformar o filme em um “sermão woke”.
Manohla Dargis, do New York Times, ecoa essa percepção, reconhecendo o esforço de Cruise e os elementos visuais, mas considera sua atuação uma sucessão de gestos e discursos desconexos que sobrecarregam um filme já excessivamente carregado. Peter Bradshaw, do The Guardian, foi ainda mais incisivo, descrevendo “Digger” como superficial e autocongratulatório, embora admita a qualidade da fotografia de Emmanuel Lubezki e do design de produção de Dennis Gassner, que criam um universo visual decadente e opressivo adequado à narrativa.
A crítica predominante é que a questão climática é tratada de forma excessivamente explícita, deixando pouco espaço para a sátira. Wlademar Dalenogare sugere que Iñárritu explica demais suas próprias piadas, resultando em uma “cacofonia” de exageros. Apesar disso, o filme apresenta momentos de maior complexidade, como o discurso de Digger sobre a dependência coletiva dos combustíveis fósseis, uma nuance que, segundo a Variety, o filme abandona rapidamente em favor de um tom acusatório.
O papel de Tom Cruise e a estratégia da Warner
Tom Cruise, apesar de seus esforços para se afastar de seu papel habitual de herói de ação, não conseguiu sustentar o filme sozinho. Críticos elogiaram sua caricatura do magnata, mas reconheceram que nem seu estrelato foi suficiente para compensar as deficiências do material. O elenco, em geral, parece ter sofrido, com exceções como Riz Ahmed e Jesse Plemons, enquanto atores como Sandra Hüller, John Goodman e Michael Stuhlbarg foram considerados desperdiçados em papéis caricaturais.
A Warner, ciente dos problemas, adotou uma estratégia de marketing incomum, utilizando reações negativas e positivas lado a lado em sua publicidade, convidando o público a “decidir por si mesmo”. Essa tática, contudo, não evitou a fraca abertura de bilheteria, com as críticas profissionais se mostrando menos favoráveis do que as reações iniciais de influenciadores. A recepção crítica, embora majoritariamente negativa, não foi unânime, com o Rotten Tomatoes registrando 51% de aprovação entre os críticos e 71% entre o público, indicando uma divergência significativa entre as avaliações profissionais e a do espectador comum.
Um fracasso em um momento delicado para a Warner
O desempenho de “Digger” ocorre em um período desafiador para a Warner. Nenhum dos filmes do estúdio em 2026 havia superado a marca de US$ 100 milhões no mercado doméstico até o momento da reportagem. A saída de Pamela Abdy e Michael De Luca, executivos conhecidos por apostar em cineastas autorais, após a aquisição pela Paramount, foi relacionada ao desempenho insatisfatório do estúdio, com “Digger” sendo citado como um dos principais problemas recentes.
Contudo, atribuir o fracasso unicamente à perda de força comercial de Tom Cruise seria simplista. “Digger” se distanciava dos filmes de ação que consolidaram sua carreira recente, focando em uma sátira climática cara e dependente de texto, sem as sequências de ação espetaculares que costumam impulsionar sua bilheteria. A combinação de ambição artística, um astro de renome e um orçamento elevado, sem a execução adequada, resultou em um filme que, para muitos críticos, priorizou a mensagem e a demonstração de importância em detrimento do humor e da eficácia satírica. O alto custo de produção e marketing, somado à estreia decepcionante e à recepção crítica negativa, tornam “Digger” um exemplo notável de como uma produção de grande escala, mesmo com estrelas de peso, pode falhar em capturar o interesse do público quando a execução não acompanha a ambição.
