A temporada de premiações do Nobel começa com a expectativa de um anúncio discreto para o Prêmio da Paz, marcado pela cautela do comitê em se afastar de polêmicas recentes.
O Comitê Norueguês do Nobel navega em águas delicadas ao se aproximar da divulgação do vencedor do Prêmio da Paz, que encerra a série de anúncios dos Nobel na próxima sexta-feira (9). A edição do ano passado foi marcada por uma pressão sem precedentes, em grande parte impulsionada pela campanha de Donald Trump por sua própria candidatura. Agora, a questão que paira é por quanto tempo a figura do ex-presidente americano continuará associada a este prestigiado prêmio.
A situação se complicou ainda mais quando a laureada de 2023, a opositora venezuelana María Corina Machado, presenteou Trump com sua medalha de ouro. Machado justificou a ação considerando que ele merecia o reconhecimento após a captura do ditador Nicolás Maduro em uma operação militar em Caracas. Esse episódio intensificou a atenção de Trump sobre as escolhas futuras do comitê.
“Sempre há muito lobby e até tentativas de exercer pressão”, admitiu o secretário do comitê, Kristian Berg Harpviken, em entrevista à agência AFP. “De certa forma, estamos muito acostumados com isso.” No entanto, especialistas indicam que o contexto atual pode levar o comitê a optar por um vencedor que gere o mínimo de controvérsia possível.
“Depois da premiação do ano passado, sem dúvida querem evitar qualquer polêmica neste ano”, avaliou Haakon Gjerløw, diretor do Prio (Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo). Uma das apostas mais fortes para o prêmio deste ano, segundo Gjerløw, seria uma divisão entre a organização Save the Children e o ucraniano Mikola Kuleba. Kuleba é reconhecido por seu trabalho em prol do retorno de crianças ucranianas sequestradas ou transferidas à força pela Rússia.
Candidatos em potencial e o desejo por discrição
Essa escolha hipotética teria a vantagem adicional de potencialmente agradar à ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, que em 2023 escreveu uma carta ao presidente russo Vladimir Putin defendendo a libertação de crianças ucranianas. Entre outros nomes cotados pelo Prio para o Nobel da Paz estão as Salas de Resposta de Emergência do Sudão (ERR), uma rede de voluntários que atua em zonas de conflito e fome, e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), dada a escalada de violência contra a profissão em 2023. Até mesmo a Estação Espacial Internacional foi mencionada como uma possibilidade.
Caso o comitê decida por uma abordagem mais confrontadora, nomes como Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, o Tribunal Penal Internacional ou até mesmo o Papa Leão 14 poderiam ser considerados. Contudo, a tendência aponta para uma escolha que minimize riscos e evite o escrutínio público intenso que marcou a edição anterior.
A temporada de premiações Nobel teve início na segunda-feira (5) com o anúncio do laureado em Medicina, cujos estudos sobre o hormônio GLP-1, base para medicamentos contra obesidade como Ozempic e Mounjaro, são fortes candidatos. Os prêmios de Física e Química serão divulgados na terça e quarta-feira, respectivamente, seguidos pelo de Literatura na quinta. O encerramento da semana será com o aguardado Prêmio da Paz na sexta-feira.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela agência AFP e análises do Prio (Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo).
