Uma nova peça no complexo quebra-cabeça da evolução aviária foi revelada com a descoberta, na China, de um dinossauro emplumado que reforça a hipótese de que o voo não foi uma inovação exclusiva das aves. O Norellraptor barsboldi, um pequeno carnívoro com pouco menos de 60 centímetros, apresenta características que sugerem que a evolução das penas para locomoção aérea seguiu caminhos paralelos em grupos distintos de dinossauros, um fenômeno conhecido como evolução convergente.
Os achados, publicados na revista Nature Communications, descrevem um esqueleto fossilizado quase completo, datado de aproximadamente 120 milhões de anos. A espécie foi nomeada em homenagem aos renomados paleontólogos Mark Allen Norrell e Rinchen Barsbold, ambos falecidos no ano passado, que dedicaram suas carreiras ao estudo de dinossauros semelhantes a aves. A descoberta foi liderada por Andrea Cau, do Museu Paleontológico e Centro Herpetológico Ophis, na Itália, e Qiang Ji, da Universidade Geológica de Hebei, na China.
Anatomia de “Biplano” e Penas Assimétricas
O Norellraptor barsboldi pertence ao grupo Microraptorinae, um subgrupo de pequenos dinossauros carnívoros conhecidos por apresentarem fósseis espetaculares com penas preservadas. Uma das características mais notáveis desses dinossauros é a sua anatomia que lembra um “biplano”, com penas desenvolvidas tanto nos membros dianteiros quanto nos traseiros. Essa disposição sugere que eles poderiam ter utilizado ambos os pares de “asas” para locomoção aérea, uma estratégia de voo que difere significativamente das aves modernas, cujas asas evoluíram exclusivamente dos membros anteriores.
A presença de penas assimétricas nos membros traseiros do Norellraptor barsboldi é um forte indício de sua função na locomoção aérea. A assimetria, onde um lado da pena é mais largo que o outro, é crucial para a manobrabilidade em voo nas aves atuais. A descoberta dessas penas em dinossauros não aviários levanta a possibilidade de que os Microraptorinae fossem capazes de voo autopropelido, ou seja, de decolar e permanecer no ar batendo asas, e não apenas planando.
Evolução Paralela ou Compartilhada?
A grande semelhança entre os Microraptorinae e as “aves verdadeiras” (que também são consideradas dinossauros) tem gerado debate sobre a origem do voo. Uma das hipóteses é que a fase inicial do voo nas aves compartilhou muitas características com o dos Microraptorinae. No entanto, a análise detalhada da anatomia e das relações de parentesco do Norellraptor barsboldi, segundo os autores do estudo, favorece a ideia de um processo evolutivo paralelo.
Ao considerar 194 características esqueléticas, os pesquisadores observaram que, embora 30% delas sejam comuns a aves primitivas e modernas, a ordem em que essas adaptações surgiram foi significativamente diferente entre os Microraptorinae e as aves. Para que houvesse uma trajetória evolutiva compartilhada nesses quesitos, seria necessária uma árvore genealógica com 23 passos evolutivos adicionais, uma probabilidade estatisticamente menor. A análise microscópica da estrutura óssea do fóssil também sugere ritmos de crescimento distintos entre os membros dianteiros e traseiros, em contraste com os padrões observados em aves primitivas, reforçando a teoria de origens paralelas para a locomoção alada.
Essas descobertas não apenas expandem nossa compreensão sobre a diversidade de formas de locomoção aérea em dinossauros, mas também ressaltam a complexidade e a criatividade da evolução, demonstrando como diferentes linhagens podem, independentemente, chegar a soluções semelhantes para os desafios impostos pela sobrevivência.
