Brasil se aproxima das urnas com o debate eleitoral sequestrado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O mês que antecedeu as eleições de 2026 foi marcado por uma crise sem precedentes no Poder Judiciário brasileiro, com figuras proeminentes do STF e investigações envolvendo o empresário Daniel Vorcaro dominando o noticiário. Em vez do esperado debate sobre propostas e planos de governo, a campanha eleitoral pareceu correr em um mundo paralelo, só retornando aos holofotes na reta final da votação do primeiro turno. Candidatos como Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentaram, sem sucesso total, quebrar o protagonismo do Supremo, mesmo que indiretamente envolvidos nas disputas internas da Corte.
A poucas semanas do pleito, a população só voltou a lembrar da necessidade de votar com o surgimento de fake news e medidas eleitoreiras, como o anúncio do fim das apostas esportivas. As pesquisas de intenção de voto e interesse eleitoral refletiram essa dinâmica. Um levantamento da Nexus/BTG Pactual, divulgado em 28 de setembro, mostrou que 77% dos entrevistados estavam muito interessados ou interessados na eleição, um avanço modesto de apenas quatro pontos percentuais em relação aos 73% registrados em março. Essa estagnação indica que, apesar da forte cobertura midiática, o interesse do eleitorado no processo eleitoral em si não acompanhou a intensidade do debate público.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Nexus/BTG Pactual e Quaest.
Corrupção emerge como preocupação central, impulsionada pelo STF
A crise no Supremo Tribunal Federal, no entanto, não passou despercebida. A relação entre ministros da Corte e Daniel Vorcaro trouxe à tona a preocupação com a corrupção, tema que em eleições passadas ficava restrito a acusações entre candidatos. A Suprema Corte, ao se tornar centro das atenções, acabou por sequestrar o assunto para si, elevando a preocupação do eleitorado. Uma pesquisa da Quaest, realizada em 2 de setembro, indicava a corrupção como principal problema para 14% dos entrevistados. Menos de duas semanas depois, em 14 de setembro, esse índice saltou para 22%, ficando atrás apenas da violência (31%) e da economia (16%). Esse aumento demonstra como a discussão sobre a integridade no poder, mesmo que originada no Judiciário, impactou diretamente a percepção pública sobre os problemas do país.
Judicialização excessiva desvia o foco das propostas políticas
O período eleitoral também foi marcado por uma intensa judicialização, com Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobrecarregados com questões que vão desde o registro de candidaturas até a propagação de desinformação e impugnação de pesquisas. Esse excesso de litígios e decisões judiciais afastou o foco do debate sobre as propostas dos candidatos para solucionar os problemas nacionais. Em vez de discussões sobre planos de governo, o que predominou foram acusações e notícias falsas, muitas das quais acabaram tramitando nas cortes eleitorais.
Segundo o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, a judicialização da política, de forma mais ampla, desempenhou um papel crucial no distanciamento do eleitor. Ele alerta que esse processo é perigoso pois esvazia o debate da arena política, submetendo-o a decisões tecnicistas da lei, que nem sempre refletem o princípio democrático. Em vez de soluções políticas, as questões passam a ser resolvidas por meio de interpretações jurídicas, o que pode minar a participação cidadã e a clareza das escolhas eleitorais.
Metodologia das pesquisas citadas
A pesquisa Nexus/BTG Pactual, realizada entre 25 e 27 de setembro de 2026 com 2.000 entrevistados, possui nível de confiança de 95% e margem de erro de 2 pontos percentuais, com registro no TSE sob o nº BR-07557/2026. A pesquisa Quaest, divulgada em 14 de setembro, ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de setembro, com nível de confiança de 95% e margem de erro de 2 pontos percentuais (registro TSE nº BR-03607/2026). Outra pesquisa Quaest, de 2 de setembro, com 2.004 entrevistados entre 24 e 27 de setembro, também apresentou nível de confiança de 95% e margem de erro de 2 pontos percentuais (registro TSE nº BR-06520/2026).
