Nobel de Medicina de 1926, sobre câncer, é revisto e considerado um passo equivocado, mas importante
Nobel de Medicina de 1926, sobre câncer, é revisto e considerado um passo equivocado, mas importante

Nobel de Medicina de 1926, sobre câncer, é revisto e considerado um passo equivocado, mas importante

A controvérsia em torno do Prêmio Nobel de Medicina concedido a Johannes Fibiger há cem anos, em 1926, ressurge com novas análises que, embora confirmem o erro em suas conclusões originais, reconhecem a importância de seu trabalho para a compreensão do câncer. O cientista dinamarquês acreditava ter descoberto que vermes nematoides eram a causa de […]

Resumo

A controvérsia em torno do Prêmio Nobel de Medicina concedido a Johannes Fibiger há cem anos, em 1926, ressurge com novas análises que, embora confirmem o erro em suas conclusões originais, reconhecem a importância de seu trabalho para a compreensão do câncer. O cientista dinamarquês acreditava ter descoberto que vermes nematoides eram a causa de tumores em ratos, uma hipótese que se provou incorreta, mas que, segundo especialistas, abriu caminhos para futuras pesquisas sobre a influência de fatores ambientais e inflamatórios na doença.

Na época, Johannes Fibiger observou a presença de vermes, que ele chamou de Spiroptera neoplastica (posteriormente reclassificados), em estômagos de ratos com tumores. Sua teoria central era que esses vermes, ou uma toxina por eles produzida, induziam o desenvolvimento de câncer. Fibiger detalhou seu raciocínio em quatro pontos: a transmissão da doença através de hospedeiros intermediários (baratas), a indução de inflamação e formação de lesões benignas e malignas nos ratos infectados, a crença de que uma toxina era a principal causadora e a observação de metástases pulmonares sem a presença de vermes, o que o levou a supor que o epitélio estomacal afetado possuía propriedades especiais. A pesquisa foi agraciada com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina.

No entanto, estudos posteriores, publicados nas décadas de 1930 e 1950, refutaram as conclusões de Fibiger. As lesões observadas pelo cientista dinamarquês não eram, em sua maioria, cânceres malignos, mas sim metaplasias e hiperplasias benignas. Essas alterações foram atribuídas à combinação da irritação crônica causada pelos vermes com uma deficiência severa de vitamina A na dieta dos ratos utilizados nos experimentos. A morte de Fibiger em 1928 impediu que ele pudesse se defender ou responder às novas descobertas.

Um legado revisado

Apesar de o resultado final da pesquisa de Fibiger ter sido considerado incorreto, especialistas como Ana Paula Lepique, professora do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB-USP), defendem que o trabalho, mesmo com suas falhas, representou um avanço. “Cientistas falam que esse Nobel não foi merecido. Mas será que não? Porque na época, apesar de o resultado estar errado, trouxe um viés muito forte de que um ambiente irritante poderia causar câncer. E olha, isso é verdade”, afirma Lepique.

A professora ressalta que, de fato, existem vermes que causam câncer em humanos, como o Schistosoma (associado ao câncer de bexiga) e o Opisthorchis viverrini (ligado ao câncer de duto de vesícula biliar). Em ambos os casos, a inflamação crônica gerada pelos parasitas é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de tumores. A hipótese de Fibiger, portanto, embora baseada em premissas equivocadas sobre a causa direta, apontou para a importância de um ambiente inflamatório persistente.

Limitações metodológicas e contexto científico

A principal limitação do estudo de Fibiger, segundo Lepique, foi a falta de comprovação robusta com a tecnologia disponível há mais de cem anos. A validação causal de uma hipótese científica requer o preenchimento de critérios epidemiológicos que ainda não haviam sido formalizados na época. Na ausência desses métodos, Fibiger baseou-se em observações empíricas: ao alimentar ratos com baratas infectadas, ele observava o desenvolvimento de lesões, e ao não fazê-lo, não as via.

A dieta dos ratos, composta apenas por pão e água, é apontada como a provável causa da deficiência de vitamina A. Experimentos controlados com suplementação de vitamina A, ou a remoção seletiva de outros fatores, poderiam ter esclarecido a situação. Além disso, a falta de um ambiente controlado para as pesquisas, comum na época, onde ratos selvagens eram utilizados em condições longe do ideal, comprometeu a precisão dos resultados. Pesquisas atuais em biotérios seguem rigorosos protocolos de controle sanitário, alimentar e ambiental.

Em suma, o trabalho de Johannes Fibiger, apesar de ter chegado a uma conclusão errônea sobre a causa do câncer, foi um marco que direcionou a atenção científica para a relação entre irritação crônica, fatores ambientais e o desenvolvimento da doença. Essa linha de investigação, posteriormente aprofundada por outros pesquisadores, contribuiu significativamente para o avanço do conhecimento em oncologia e para a identificação de diversas causas e fatores etiológicos do câncer.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por fontes jornalísticas especializadas em ciência.

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