Jiboia mais rara do mundo é redescoberta e inspira projeto de conservação no Vale do Ribeira
Jiboia mais rara do mundo é redescoberta e inspira projeto de conservação no Vale do Ribeira

Jiboia mais rara do mundo é redescoberta e inspira projeto de conservação no Vale do Ribeira

A descoberta que reacendeu a esperança pela jiboia-do-Ribeira Em outubro de 2016, uma comunidade rural em Sete Barras, no Vale do Ribeira (SP), alertou biólogos sobre a possível presença da jiboia-do-Ribeira (Corallus cropanii), espécie que não era vista viva há mais de 60 anos. O aviso culminou na localização do primeiro exemplar vivo da serpente […]

Resumo

A descoberta que reacendeu a esperança pela jiboia-do-Ribeira

Em outubro de 2016, uma comunidade rural em Sete Barras, no Vale do Ribeira (SP), alertou biólogos sobre a possível presença da jiboia-do-Ribeira (Corallus cropanii), espécie que não era vista viva há mais de 60 anos. O aviso culminou na localização do primeiro exemplar vivo da serpente desde sua descrição científica em 1953, um marco para o Projeto Jiboia do Ribeira (PJR).

Batizada de Dona Crô, a cobra, com sua coloração única que mescla tons amarelos com padrões triangulares escuros, é uma serpente não peçonhenta da família dos boídeos, adaptada à vida arborícola na Mata Atlântica remanescente da região. A raridade da espécie se acentuava pelo fato de que, entre 1953 e 2016, apenas seis outros espécimes foram encontrados, todos mortos. Desde o início das ações do PJR, com foco na comunicação e educação ambiental, foram registrados 20 novos indivíduos.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Projeto Jiboia do Ribeira (PJR) e parceiros.

A ciência cidadã como motor da conservação

A colaboração ativa dos moradores locais tem sido fundamental para o sucesso do PJR. A iniciativa não apenas facilitou a localização de novos exemplares, mas também contribuiu para desmistificar o medo que cercava a espécie, muitas vezes confundida com a perigosa jararacuçu devido à aparência. O PJR atua no Vale do Ribeira, uma das últimas áreas com Mata Atlântica preservada no estado de São Paulo, mas que sofre com pressões ambientais como desmatamento e expansão agrícola.

A bióloga Daniela Gennari, uma das responsáveis pelo projeto, destaca que os novos registros abrem portas para o estudo da biologia da Corallus cropanii, sobre a qual ainda há muitas lacunas de conhecimento, como maturação sexual, número de filhotes e hábitos alimentares. Acompanhamentos com radiofrequência, como o feito com Dona Crô, foram essenciais para coletar dados preliminares.

Da raridade ao símbolo de preservação

Além de Dona Crô, outros indivíduos foram encontrados, como a fêmea Esperança, o macho Ribeiro e a fêmea Juquiá, demonstrando a eficácia da aproximação com as comunidades. Rafael Guimarães, diretor técnico da Preservalle, parceira do PJR, ressalta a potência da educação ambiental que transforma moradores em agentes ativos na identificação e proteção da espécie.

O Vale do Ribeira, apesar de sua importância ecológica, enfrenta desafios como a devastação e o aumento da atividade humana. A jiboia-do-Ribeira, classificada como ameaçada de extinção, torna-se um símbolo para a preservação de todo o ecossistema. O PJR agora integra o Instituto Conservação Brasil, buscando maior segurança jurídica e recursos financeiros para expandir suas ações a todos os municípios da região, consolidando a serpente como espécie-símbolo.

Desafios e perspectivas para o futuro

Apesar do sucesso na aproximação com as comunidades e no aumento de registros, a obtenção de recursos financeiros continua sendo o principal desafio para a continuidade do projeto. Os biólogos frequentemente investem recursos próprios para manter as pesquisas e ações de conservação. O governo de São Paulo, por meio da Fundação Florestal e da Semil, afirma desenvolver ações para a conservação da biodiversidade e habitats naturais na região, incluindo pesquisas e monitoramento.

O objetivo para os próximos dez anos é expandir o alcance do projeto, aprofundar o conhecimento científico sobre a espécie e fortalecer a relação de confiança com as comunidades, garantindo a proteção da jiboia-do-Ribeira e, por consequência, a saúde do ecossistema da Mata Atlântica. A iniciativa se destaca por ter uma cobra como espécie-símbolo de conservação, algo incomum no cenário brasileiro.

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