Descoberta surpreendente em ilha mexicana revela comportamento cultural inédito em guaxinins.
Em uma ilha mexicana onde turistas buscam relaxamento, cientistas observaram uma cena inusitada: guaxinins-pigmeus, uma espécie criticamente ameaçada, demonstrando uma habilidade surpreendente. Uma jovem fêmea foi vista retirando um recibo de papel de uma lata de lixo, moldando-o em forma de bola e, em seguida, manipulando-o com as patas, em um comportamento que lembra o de um jogador de futebol. A novidade, no entanto, não parou por aí: a guaxinim ensinou sua família a replicar o ato, criando e utilizando as bolas de papel como brinquedos.
Esta descoberta, publicada na revista Wild e conduzida por pesquisadores da Universidade de Miami, marca a primeira documentação de guaxinins fabricando brinquedos e engajando-se em comportamentos que indicam cultura material e aprendizado social. A cultura, definida como informações ou comportamentos transmitidos por aprendizado e não por hereditariedade, foi observada neste caso com a manipulação de objetos e a transmissão dessa prática entre os animais.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The New York Times.
Um Comportamento Cultural Inédito
A pesquisa foca nos guaxinins-pigmeus, que habitam exclusivamente a ilha de Cozumel e cuja população é estimada em menos de 200 indivíduos. Estes animais, menores e com pelagem mais clara que seus parentes do continente, adaptaram-se aos ecossistemas costeiros e manguezais da ilha. Embora sua dieta natural inclua caranguejos e caracóis, a crescente interação com o lixo deixado por turistas tem levado a problemas de saúde, como desnutrição devido ao consumo excessivo de alimentos processados.
Foi em meio a essa realidade que a bióloga Nessie O’Neil, primeira autora do estudo, notou o comportamento peculiar. Uma jovem guaxinim, ao invés de procurar por restos de salgadinhos nas lixeiras comuns, dirigiu-se à de recicláveis. Ali, ela pegou um recibo de papel, o moldou em uma bola, mergulhou-o na água e o rolou na areia, transformando-o em um brinquedo. Em seguida, começou a empurrá-lo pelo chão.
Aprendizado e Transmissão Social
Observações posteriores detalharam o processo. Ao longo de 64 horas, foram registradas 14 tentativas de fabricação de bolas. A irmã da guaxinim pioneira também tentou, mas inicialmente utilizou materiais inadequados. A primeira guaxinim demonstrou o processo correto, pegando uma tentativa falha da irmã e dobrando-a adequadamente. Após observar, a irmã conseguiu replicar o feito, e mais tarde, as duas brincaram juntas com as bolas, chegando a interagir com um grupo de quatis jovens, mamíferos aparentados.
Michelle Szydlowski, coautora do estudo, descreve a interação como um aprendizado social fascinante e inédito. Curiosamente, a mãe das fêmeas tentou fabricar uma bola após consumir restos de uma margarita, mas falhou, aparentemente sob efeito do álcool. O comportamento observado, segundo Louis Lazure, biólogo especialista em guaxinins que não participou da pesquisa, é notável pela complexidade e ressalta a capacidade cognitiva desses animais.
A Importância da Descoberta
Embora a fabricação de ferramentas e brinquedos já tenha sido documentada em outras espécies, como chimpanzés e golfinhos, o caso dos guaxinins-pigmeus em Cozumel é o primeiro registro de cultura material ativa e aprendizado social transmitido entre eles. Szydlowski acredita que essa descoberta pode fortalecer os argumentos para a proteção da espécie. “Sempre que conseguimos provar que existe uma sociedade aqui, que existe uma cultura aqui, temos mais chances, assim esperamos, de conseguir proteção para eles”, afirma.
