A contagem de espermatozoides em homens tem apresentado uma queda acentuada globalmente, um fenômeno que, apesar de alarmante, ainda é subestimado e pouco compreendido. Estudos recentes apontam para reduções significativas na qualidade e quantidade do sêmen, impactando a fertilidade masculina de forma silenciosa. A dificuldade em conceber é frequentemente atribuída à mulher, o que atrasa o diagnóstico e o tratamento nos homens, muitas vezes quando as chances de reversão já são menores.
Pesquisas publicadas em revistas científicas indicam que a contagem de espermatozoides em todo o mundo diminuiu mais de 51% desde 1973, com o ritmo de queda se acelerando. Uma análise de mais de 17 mil homens revelou que a morfologia dos espermatozoides – sua forma e tamanho – piorou cerca de 50% entre 2010 e 2019. A motilidade, que mede a capacidade de locomoção dos espermatozoides em direção ao óvulo, também sofreu quedas drásticas, chegando a 87% em alguns países no mesmo período. Especialistas alertam que a infertilidade masculina é um problema de saúde pública subnotificado.
A fertilidade masculina depende de fatores como concentração, contagem total, morfologia e motilidade dos espermatozoides. Esses parâmetros podem ser negativamente afetados por diversos fatores de saúde e hábitos de vida. Entre os mais comuns estão o excesso de peso, estresse, privação de sono, tabagismo, exposição a microplásticos e o consumo de maconha. O ganho de peso, em particular, prejudica o funcionamento dos testículos, que precisam de uma temperatura cerca de 2°C abaixo da corporal para produzir espermatozoides de qualidade. O excesso de gordura eleva essa temperatura, comprometendo a produção e a qualidade do sêmen.
A atenção à saúde reprodutiva masculina é historicamente menor. Diferentemente das mulheres, que possuem indicadores biológicos regulares como o ciclo menstrual, os homens não dispõem de um sinal natural que alerte para possíveis problemas de fertilidade. Frequentemente, a descoberta de uma dificuldade em conceber ocorre apenas quando o casal decide ter filhos, o que pode levar a um diagnóstico em idades onde certas condições de saúde são mais difíceis de reverter.
A percepção social também contribui para a subnotificação. Em muitas culturas, a responsabilidade pela infertilidade recai sobre a mulher, levando homens a atrasarem a busca por avaliação médica ou a acreditarem erroneamente que uma vida sexual ativa garante a fertilidade. Essa crença é reforçada pelo fato de que, em muitos casos de infertilidade conjugal, a contribuição masculina pode ser significativa, chegando a representar a maioria dos fatores em clínicas de reprodução assistida.
O impacto de substâncias e hábitos
O uso de testosterona sintética e esteroides anabolizantes é outro fator relevante, embora menos discutido. Homens que buscam aumento de massa muscular podem, sem perceber, reduzir ou interromper sua própria produção de espermatozoides. O excesso de testosterona no organismo pode suprimir a espermatogênese. Embora a fertilidade possa se recuperar após a interrupção do uso, o tempo e a extensão dessa recuperação dependem de fatores como idade, dose e duração do consumo. Usuários frequentes e de longo prazo podem ter dificuldades em retornar aos níveis de produção anteriores.
No entanto, especialistas ressaltam que os esteroides representam uma parcela pequena das causas de infertilidade masculina. Fatores como excesso de peso, exposição prolongada ao calor e tabagismo são citados como causas mais frequentes. A boa notícia é que, com diagnóstico precoce e mudanças no estilo de vida ou tratamento adequado, a recuperação da fertilidade é possível em muitos casos, geralmente entre seis e doze meses. Quanto mais tempo a infertilidade masculina permanece sem diagnóstico, menores tendem a ser as chances de reversão completa.
As informações foram reunidas a partir de estudos publicados nas revistas científicas Antioxidants e Scientific Reports, e declarações de especialistas como Edidiong Akang (biólogo reprodutivo), Riffat Bibi (embriologista clínica) e Chirag Bhandari (andrologista).
