A espera por uma nova chance
Felipe Oliveira Costa, de 7 anos, pôde retornar à normalidade e até mesmo voltar a jogar bola em sua casa em São Paulo. Há quatro meses, ele passou por um transplante de fígado que salvou sua vida. O menino foi diagnosticado com a síndrome de Stevens-Johnson em abril de 2025, uma reação medicamentosa que, em seu caso, evoluiu para cirrose hepática e insuficiência hepática, exigindo o transplante para evitar o óbito. As informações foram reunidas a partir de reportagens sobre transplantes pediátricos no Brasil.
A jornada de Felipe, no entanto, expõe um problema crônico no país: a dificuldade em realizar transplantes em crianças. A principal barreira reside na escassez de órgãos compatíveis com o porte físico dos pequenos receptores. Para que um transplante seja bem-sucedido, o órgão doado deve ter tamanho e peso adequados ao paciente. No caso de crianças, essa compatibilidade é mais restrita, o que aumenta o tempo de espera e a necessidade de doadores específicos.
“A falta de doador pediátrico é um grande desafio para pacientes que precisam de transplante”, explica Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Hospital Sírio-Libanês. Ele ressalta que apenas cerca de 2% das notificações de doadores falecidos são de crianças, o que limita drasticamente as opções.
O papel crucial do doador vivo
Diante da dificuldade em encontrar um doador falecido compatível, a opção de doador vivo se torna essencial. No caso de Felipe, seu pai, Abimael Maurício Oliveira Silva, se prontificou a doar parte de seu fígado. O procedimento, embora demande preparo físico e emocional, é vital para salvar a vida da criança. “Não tem coisa mais gratificante do que ver ele felizão desse jeito. Ele acha que eu o salvei, mas foi ele que me salvou e me salva todos os dias”, declara o pai, emocionado.
Cirurgiões explicam que a doação de parte do fígado por um adulto para uma criança tem um impacto mínimo na saúde do doador. O órgão remanescente no doador adulto tem a capacidade de regenerar e crescer, enquanto a porção transplantada no receptor infantil também se desenvolve. O Ministério da Saúde define doador vivo como pessoa maior de idade, juridicamente capaz e saudável, que concorda com o transplante sem prejuízo à própria saúde. É possível doar um rim, parte do fígado, medula ou pulmões, desde que haja compatibilidade sanguínea e avaliação médica positiva.
Recusa familiar e o desafio da conscientização
Apesar da necessidade urgente, as taxas de recusa de doação de órgãos por parte das famílias de potenciais doadores ainda são elevadas no Brasil. Em 2023, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), as famílias recusaram doações em 45% dos casos. Esse índice é ainda maior quando se trata de doações pediátricas.
Fonseca, do Sírio-Libanês, aponta que muitas mortes encefálicas em crianças ocorrem em decorrência de afogamentos ou acidentes com parada cardiorrespiratória. Nesses momentos de profunda dor e abalo, a abordagem sobre a doação pode ser recebida com negativas. Já em relação aos adultos, a principal causa de recusa é o desconhecimento da vontade do indivíduo em vida sobre ser ou não um doador.
“Cabe campanha de esclarecimento para estimular as famílias a conversarem sobre qual seria a decisão de cada um”, sugere José Sampaio, cirurgião responsável pelo Serviço de Transplante Hepático do Hospital Pequeno Príncipe, no Paraná. A conversa aberta sobre o assunto em vida pode facilitar a decisão em momentos de fragilidade.
O panorama dos transplantes pediátricos no Brasil
O Brasil possui uma rede de 829 serviços de saúde autorizados a realizar transplantes. Em 2023, 70 deles realizaram procedimentos pediátricos. De janeiro a julho de 2024, o país registrou 278 transplantes em crianças, sendo 114 de fígado, 140 de rim e 24 de coração. No ano anterior, foram 589 transplantes pediátricos no total.
O Sistema Único de Saúde (SUS) opera com uma lista única de espera, priorizando critérios técnicos, clínicos e de compatibilidade, e não apenas o tempo de inscrição. Para crianças, a compatibilidade do tamanho do órgão com o corpo do receptor é um fator determinante. Curiosamente, mais da metade dos transplantes pediátricos (53%) é realizada com órgãos de doadores na faixa etária de 11 a 17 anos.
A doação de órgãos de crianças, quando vivas, requer a autorização de ambos os pais ou do responsável legal. Para Fonseca, a doação de órgãos representa um ato de profunda empatia. “Pense no outro lado, coloque-se no lugar da outra pessoa. A doação de órgãos é o momento mais profundo da relação entre os seres humanos. Não existe uma conexão maior”, conclui.
