O reencontro improvável que floresce a partir da paz
O Acordo de Paz assinado entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) abriu portas para reencontros inusitados. Dez anos após a assinatura da primeira versão do pacto, Diego Calderón-Franco, biólogo que em 2004 foi sequestrado pela guerrilha, encontrou uma maneira singular de processar seu passado e contribuir para a pacificação do país: observando pássaros ao lado de seus ex-sequestradores.
A iniciativa, que já resultou em cerca de dez capacitações e expedições desde 2016, transforma a observação de aves em uma ferramenta de diálogo e reconciliação. Franco descreve seu trabalho como uma tentativa de apresentar uma nova perspectiva sobre o conflito, buscando gerar um sentimento de respeito e carinho, mesmo em situações que antes eram marcadas pela violência.
As informações foram reunidas a partir de relatos de Diego Calderón-Franco sobre sua experiência e o desenvolvimento de suas iniciativas pós-acordo de paz.
Da expedição científica ao cativeiro
No início dos anos 2000, enquanto cursava biologia na Universidade de Antioquia, Diego Calderón-Franco já demonstrava um profundo interesse por aves. A Colômbia vivia um período de instabilidade, com o conflito armado impactando diversas regiões rurais. Era comum que estudantes universitários, como ele, fossem abordados por grupos armados durante expedições de pesquisa.
Em 2004, durante uma expedição científica à Serranía del Perijá, região com potencial para descobertas devido à escassez de exploração científica nos anos anteriores, o grupo de Franco foi surpreendido. Após uma noite de convívio inicial com homens que se apresentaram como civis, a realidade se revelou: eram membros da Frente 41 das Farc. O grupo de cientistas foi mantido em cativeiro por 88 dias, um período que Franco descreve como uma experiência de total dependência, comparável a retornar à infância.
Durante o sequestro, a equipe buscou manter a calma e a estoicidade, encontrando nos estudos da natureza uma forma de lidar com a adversidade. Analisavam formigas e até criavam brincadeiras com um besouro gigante. Franco relata que, apesar do medo inerente à situação, percebia uma certa compaixão em muitos dos guerrilheiros, que em sua maioria eram camponeses alistados por diversas circunstâncias, muitas vezes forçados pela situação ou para escapar de grupos paramilitares.
A transformação pela paz e as aves
Após sua libertação, Franco seguiu sua vida, graduou-se em biologia e iniciou carreira no turismo e observação de aves. A assinatura do Acordo de Paz em 2016 despertou nele o desejo de agir. Acreditando na importância do pacto, ele se engajou em projetos que visavam explorar áreas antes inacessíveis devido ao conflito.
Uma dessas iniciativas envolveu um grupo diversificado de 60 pessoas, incluindo ex-guerrilheiros, estudantes, vítimas, observadores da ONU e professores, todos trabalhando juntos em pesquisa de campo. Essa experiência marcou o início de suas expedições com ex-combatentes.
Franco reencontrou alguns de seus antigos captores, como Omar, que hoje lidera uma oficina de confecções. Em um desses encontros, Omar compartilhou a história de como uma refém ensinou a ler e escrever a dez guerrilheiros analfabetos, demonstrando o potencial de transformação mesmo em meio à adversidade. Para Franco, esses reencontros são um testemunho de que o ódio não precisa ser a única resposta ao passado. As aves, com sua beleza e diversidade, tornaram-se o elo que conecta essas histórias, promovendo um futuro onde a observação da natureza possa curar as feridas de um país marcado pela guerra.
