Por que ostentamos? Psicologia e economia explicam o desejo por bens de luxo
Por que ostentamos? Psicologia e economia explicam o desejo por bens de luxo

Por que ostentamos? Psicologia e economia explicam o desejo por bens de luxo

O que nos leva a desejar o “melhor” e o “mais caro”? Fernanda*, ao receber seu primeiro salário aos 18 anos, decidiu investir em uma bolsa que custava mais do que seus ganhos mensais, parcelando a compra em diversas vezes. Essa foi a primeira de muitas aquisições que iam além do necessário ou do que […]

Resumo

O que nos leva a desejar o “melhor” e o “mais caro”?

Fernanda*, ao receber seu primeiro salário aos 18 anos, decidiu investir em uma bolsa que custava mais do que seus ganhos mensais, parcelando a compra em diversas vezes. Essa foi a primeira de muitas aquisições que iam além do necessário ou do que podia pagar, sempre em busca do que ela descreve como “o melhor”. Esse padrão se repetiu com outros bens, incluindo um carro que ela mesma reconhece ser mais sofisticado do que sua rotina exigia. “Eu precisava me autoafirmar perante o outro”, confessa ela, revelando que todo o seu dinheiro era gasto em itens desnecessários, sem nunca poupar.

A ostentação, segundo especialistas, vai além do simples prazer em adquirir um produto de qualidade ou design diferenciado. Ela se manifesta quando o bem adquirido serve como uma ferramenta de comunicação para o exterior, transmitindo status, exclusividade ou um senso de pertencimento a um grupo. Essa dinâmica explica por que certos objetos podem adquirir um valor que transcende sua utilidade prática.

A psicóloga econômica Vera Rita Ferreira aponta que os seres humanos são “inerentemente sociais” e a imitação desempenha um papel crucial em nosso aprendizado e comportamento, inclusive no consumo. A vontade de se sentir especial e de se destacar pode levar à busca por itens mais caros, pois a sua menor disponibilidade garante uma sensação de exclusividade.

Essas informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela DW.

O Consumo Conspícuo e o “Self Estendido”

A teoria do “consumo conspícuo”, descrita pelo economista Thorstein Veblen, já apontava no século XIX a aquisição e exibição de bens como forma de demonstrar riqueza e posição social. Mais recentemente, o conceito de “self estendido”, formulado por Russell Belk, sugere que nossos posses também contribuem para a construção da nossa identidade.

Nesse contexto, marcas, roupas, carros e outros objetos de luxo funcionam como sinais sobre quem somos ou a que grupo aspiramos pertencer. “Você vai pertencer a uma tribo”, explica Nelsio Rodrigues, professor da UFPB. Ele ressalta que, embora a vaidade participe do processo, o desejo principal é o de se integrar a um grupo que compartilha determinados padrões de consumo.

Insegurança, Rejeição e a Busca por Reconhecimento

A comparação social é um dos motores da ostentação. Vera Rita Ferreira afirma que a necessidade de ostentar muitas vezes surge de uma insegurança sobre o próprio lugar na “régua social”. Pessoas que não têm certeza de sua posição tendem a buscar afirmação externa através do consumo.

Pesquisas corroboram essa ligação. Um estudo publicado na Frontiers in Psychology em 2023 indicou que indivíduos que relembraram experiências de rejeição ou traição apresentaram maior propensão ao consumo ostensivo. Fernanda relaciona seu próprio comportamento a uma experiência de abandono na infância, buscando compensar essa carência através de compras para autoafirmação.

Outra linha de pesquisa sugere que o consumo ostensivo pode ter uma função de sinalização sexual. Estudos indicam que, em certos contextos de relacionamentos de curto prazo, homens podem exibir bens associados a status para atrair parceiros, indicando que a ostentação pode servir a diversas funções sociais além da mera demonstração de riqueza.

O Preço do Status: “Pobreza de Luxo” e o Impacto das Redes Sociais

O dilema surge quando o desejo de ostentar compromete o orçamento. A facilidade de crédito e parcelamento tem democratizado o acesso a bens de luxo, mas também pode levar a situações de “pobreza de luxo”, onde uma pessoa exibe um padrão de consumo elevado, mas vive endividada.

Rodrigues alerta que, além do impacto financeiro, o não reconhecimento social por não possuir determinados bens ou não se adequar a certos ambientes pode gerar danos psicológicos e sociais. O consumo, nesse sentido, pode ser uma busca por validação.

As redes sociais amplificaram essa dinâmica. A exposição constante a estilos de vida idealizados, muitas vezes distantes da realidade, intensifica a comparação social e pode gerar um comportamento de “manada”, levando a um consumo desenfreado e, por vezes, delirante. “As redes sociais acabam com a paz de espírito, principalmente das pessoas que estão mais inseguras e insatisfeitas”, lamenta Vera Rita.

Fernanda, por experiência própria, decidiu se afastar das redes sociais, percebendo-as como um “mercado aberto de vendas” onde a aparência nem sempre reflete a realidade financeira, mas que ainda assim serve de gatilho para comparações prejudiciais. Ela hoje busca controle financeiro através de planejamento de gastos e apoio profissional para evitar compras impulsivas motivadas pela ostentação.

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