A prevalência de doenças inflamatórias intestinais (DII) no Brasil apresentou um crescimento superior a 400% entre 2012 e 2025, segundo um estudo divulgado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia. A pesquisa indica um salto de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes no período, totalizando 337.539 pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os dados revelam 207 mil casos de retocolite ulcerativa e 99 mil de doença de Crohn, além de cerca de 30 mil casos de colite indeterminada.
As DIIs, que incluem a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn, são condições crônicas e sem cura, caracterizadas por uma resposta desregulada do sistema imunológico que leva à inflamação no trato digestivo. Enquanto a retocolite afeta o reto e o intestino grosso, a doença de Crohn pode acometer qualquer parte do sistema digestório. Os sintomas mais comuns incluem diarreia persistente, dor abdominal, urgência para evacuar, perda de peso e fadiga. A inflamação crônica pode evoluir para complicações como estreitamentos e fístulas intestinais, e aumenta o risco de câncer colorretal.
A pesquisa, baseada em dados do DataSUS, representa uma parcela significativa da população, mas especialistas alertam que a prevalência real pode ser ainda maior, visto que não abrange pacientes do sistema de saúde suplementar. O aumento surpreendeu os pesquisadores, pois as DIIs eram consideradas raras. Até 2015, a prevalência era inferior a 60 casos por 100 mil habitantes, chegando a 64,60 em 2016. A partir de 2018, o crescimento anual estimado é de cerca de 10%.
Causas e Fatores de Risco em Debate
As causas exatas das doenças inflamatórias intestinais ainda não são totalmente compreendidas, mas especialistas apontam para uma combinação de fatores genéticos, ambientais, nutricionais e imunológicos. O estilo de vida moderno, com alimentação inadequada, sedentarismo e altos níveis de estresse, é frequentemente citado como um contribuinte importante para o aumento dos casos, especialmente em indivíduos com predisposição genética.
A pesquisa anterior dos mesmos autores, publicada em 2022 na revista The Lancet, já havia identificado 212.026 pacientes entre 2012 e 2020, com uma prevalência de 100 casos por 100 mil habitantes em 2020. O estudo mais recente, ainda não publicado em revista científica, segue a mesma metodologia e sugere que o aumento pode ser reflexo tanto de um crescimento real da incidência quanto de uma melhora no diagnóstico e na conscientização sobre as doenças entre profissionais de saúde e o público em geral.
Projeções e Preparação do Sistema de Saúde
As projeções dos pesquisadores indicam que, se a tendência se mantiver, a prevalência das DIIs poderá atingir 264 casos por 100 mil habitantes até 2035, um aumento de 67% em relação a 2025. Essa projeção sugere que aproximadamente uma em cada 379 pessoas poderá ser afetada. Uma estimativa preliminar para 2026 aponta para cerca de 170 casos por 100 mil habitantes.
Diante desse cenário, o coloproctologista Abel Quaresma, membro da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), ressalta a necessidade de o sistema de saúde se preparar para atender um número crescente de pacientes. O tratamento para as DIIs envolve medicamentos convencionais e, em casos de menor resposta, terapias com imunobiológicos, ambos disponíveis no SUS sob critérios específicos. A expansão do diagnóstico e do acesso ao tratamento é crucial para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e gerenciar as complexidades dessas doenças crônicas.
