Canetas emagrecedoras e o potencial anti-inflamatório: o que a ciência já sabe?
Canetas emagrecedoras e o potencial anti-inflamatório: o que a ciência já sabe?

Canetas emagrecedoras e o potencial anti-inflamatório: o que a ciência já sabe?

A relação entre medicamentos para emagrecimento e a inflamação Medicamentos injetáveis à base de semaglutida e tirzepatida, popularizados por sua eficácia no controle da glicemia e na promoção da perda de peso, também têm demonstrado em estudos clínicos uma capacidade de reduzir marcadores de inflamação sistêmica em humanos. No entanto, a ciência ainda busca determinar […]

Resumo

A relação entre medicamentos para emagrecimento e a inflamação

Medicamentos injetáveis à base de semaglutida e tirzepatida, popularizados por sua eficácia no controle da glicemia e na promoção da perda de peso, também têm demonstrado em estudos clínicos uma capacidade de reduzir marcadores de inflamação sistêmica em humanos. No entanto, a ciência ainda busca determinar com precisão o quanto dessa redução é atribuída diretamente à ação dos fármacos e o quanto decorre das melhorias metabólicas e do próprio emagrecimento.

A hipótese de que os agonistas de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, exerçam um efeito direto sobre o sistema imunológico ainda está em investigação. As pesquisas atuais observam uma correlação: pacientes que utilizam essas ‘canetas emagrecedoras’ apresentam uma diminuição nos níveis de inflamação. Contudo, não há, até o momento, comprovação de uma relação causal direta.

O endocrinologista Clayton Macedo, professor da Unifesp e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que a ciência ainda não consegue quantificar com exatidão a proporção do efeito anti-inflamatório que é diretamente mediado pelo medicamento, em comparação com aquele derivado da perda de peso.

A inflamação é um processo natural e essencial para a defesa e regeneração do organismo. O problema surge quando essa resposta inflamatória se torna crônica e desregulada, o que pode ocorrer em condições como obesidade, doenças autoimunes e metabólicas. Nesses casos, uma inflamação de baixo grau e persistente pode afetar diversos órgãos e aumentar o risco de doenças.

Marcadores como a proteína C-reativa (PCR), interleucina 6 e TNF-alfa são utilizados para avaliar processos inflamatórios, mas não há um exame isolado que diagnostique uma pessoa como ‘inflamada’.

Evidências de efeitos anti-inflamatórios em estudos

Estudos têm indicado que a proteína C-reativa ultrassensível (PCRus), um marcador associado a um maior risco cardiovascular, apresentou redução com o uso da semaglutida. No estudo SELECT, que envolveu mais de 17 mil pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mas sem diabetes, a semaglutida reduziu a PCRus em cerca de 38% em comparação com o grupo placebo após 104 semanas. Curiosamente, essa redução foi observada já nas primeiras semanas de tratamento, antes que a perda de peso fosse significativa, sugerindo que o emagrecimento pode não ser o único fator responsável pela melhora inflamatória.

A obesidade, especialmente com o acúmulo de gordura visceral, está ligada a um estado inflamatório crônico de baixo grau, onde o tecido adiposo disfuncional libera substâncias inflamatórias e contribui para a resistência à insulina. A perda de peso, ao reduzir a gordura visceral e melhorar o metabolismo, oferece uma explicação biológica clara para a diminuição da inflamação.

O efeito anti-inflamatório também tem sido observado no fígado, em casos de esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH). Pesquisas com semaglutida indicam melhora nesses quadros, com o estudo ESSENCE mostrando resolução da inflamação hepática em 63% dos pacientes tratados. Recentemente, o Brasil aprovou a indicação de semaglutida para o tratamento de gordura no fígado e esteatose hepática com inflamação, mesmo em pacientes sem sobrepeso ou obesidade.

Débora Coutinho Serruya, gerente médica sênior da área cardiometabólica da Novo Nordisk, ressalta a necessidade de estudos clínicos robustos e específicos para comprovar a eficácia e segurança de um mecanismo puramente anti-inflamatório em outras populações e doenças.

Aplicações em dermatologia e outras frentes de pesquisa

Na dermatologia, doenças autoimunes como a psoríase e a artrite psoriásica, frequentemente associadas a condições metabólicas como obesidade e sobrepeso, também mostram potencial de melhora com esses medicamentos. Estudos que combinaram tirzepatida e ixequizumabe em pacientes com psoríase e excesso de peso indicaram melhora nas manifestações da doença e no controle ponderal. No entanto, especialistas alertam que esses estudos não foram desenhados para avaliar a tirzepatida isoladamente como tratamento para psoríase.

Pesquisas também exploram os possíveis efeitos dos agonistas de GLP-1 em doenças inflamatórias intestinais e em processos inflamatórios cerebrais. Ainda assim, muitas questões permanecem em aberto, como a existência de uma ação direta e clinicamente relevante sobre as células do sistema imunológico, quais vias inflamatórias são modificadas e se os benefícios observados em pacientes com obesidade ou diabetes podem ser replicados em indivíduos sem essas condições.

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