Quase 150 pesquisadores de mais de 30 países alertam para a urgência de reconhecer as mudanças climáticas como uma crise de saúde pública.
Diante do agravamento de mortes por calor extremo, secas e insegurança alimentar em escala mundial, um grupo de quase 150 cientistas de mais de 30 países publicou um apelo contundente: as mudanças climáticas devem ser reconhecidas como uma “emergência de saúde pública global”. A demanda surge em um momento crítico, dez anos após a assinatura do Acordo de Paris, que, embora celebrado como um marco na saúde pública, não conseguiu conter a aceleração dos impactos sanitários e econômicos do aquecimento do planeta.
Os números são alarmantes. Apenas em 2023, as mudanças climáticas foram associadas a mais de meio milhão de mortes relacionadas ao calor, e quase 3 milhões desde 2016. Paralelamente, a área global afetada por secas extremas, que comprometem o acesso à água potável e alimentos, além de elevarem o risco de doenças, expandiu-se a um ritmo mais de 700% superior ao da década anterior. Segundo o relatório anual Lancet Countdown sobre Saúde e Mudanças Climáticas, o calor extremo causou uma perda estimada de 1,07 trilhão de dólares em renda potencial mundial no ano passado.
“Isso não pode continuar”, declarou Alan Dangour, diretor de clima e saúde da Wellcome Trust, uma das maiores instituições de caridade do mundo e financiadora do relatório da Lancet. Ele enfatiza a necessidade de colocar a saúde e o bem-estar humano no centro das ações climáticas, medindo o sucesso não por metas de emissões, mas por vidas salvas e melhores resultados de saúde.
Danos à saúde e à economia se intensificam
As conclusões do estudo da Lancet revelam uma aceleração preocupante nos riscos à saúde. Entre 2016 e 2023, as mudanças climáticas foram responsáveis por 68% das mortes relacionadas ao calor, um aumento significativo em relação aos 55% observados na década anterior. O número anual de mortes por calor associado ao clima mais do que dobrou no mesmo período. Ollie Jay, do Centro de Pesquisa em Calor e Saúde da Universidade de Sydney, descreve a situação como um “iceberg que não está derretendo, mas crescendo a cada ano”, onde as mortes são apenas a ponta visível de problemas como insolação, perda de sono e agravamento de doenças crônicas.
Os prejuízos econômicos também seguem a mesma trajetória ascendente. O trabalho em condições de calor extremo resulta em perda de renda e meios de subsistência, com 573 bilhões de horas de trabalho potencial perdidas em 2025, afetando desproporcionalmente trabalhadores rurais. Economias vulneráveis na África e no Sudeste Asiático já sofrem perdas de até 5% do PIB, em contraste com 0,5% nas nações mais desenvolvidas. Marina Romanello, diretora executiva do Lancet Countdown, ressalta que o custo econômico penaliza mais fortemente os setores e comunidades mais vulneráveis.
Os extremos hídricos também se intensificam. Desde 2003, 43% das terras do planeta tornaram-se progressivamente mais secas, enquanto 37% ficaram mais úmidas. Essa dinâmica empurra 80% das áreas terrestres para condições extremas, ameaçando colheitas, segurança alimentar e sistemas de saneamento. A seca agrava a escassez de água potável e o risco de doenças infecciosas, enquanto enchentes causam afogamentos, ferimentos e contaminação da água. Estima-se que ondas de calor e secas tenham empurrado quase 128 milhões de pessoas adicionais para a insegurança alimentar em 2024.
Proposta de um novo instrumento da OMS para ação climática e saúde
Para combater essa crise crescente, os especialistas propõem a criação de um novo instrumento sob a égide da Organização Mundial da Saúde (OMS). Este mecanismo visaria facilitar o compartilhamento de informações, a coordenação de respostas, o monitoramento de ameaças e a distribuição de recursos financeiros entre os países membros das Nações Unidas. Embora o mecanismo de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (PHEIC) tenha sido utilizado durante a pandemia de COVID-19 e surtos de mpox, ele é considerado insuficiente para lidar com a natureza complexa e de longo prazo da crise climática, que exige ação global sustentada e multissetorial.
Romanello defende uma abordagem mais ampla e coesa para fortalecer a resiliência e as capacidades dos países, evitando uma resposta reativa a emergências sucessivas. Ela destaca que já existem evidências suficientes de que ações como sistemas de alerta precoce baseados em informações climáticas reduzem os impactos de eventos extremos. A expansão das energias renováveis, por exemplo, contribuiu para a redução de mortes por poluição do ar em metade dos países avaliados desde 2016, evitando cerca de 323 mil mortes anuais. Além disso, o número de países com planos nacionais de adaptação de seus sistemas de saúde aos impactos climáticos saltou de 14 em 2015 para 56 atualmente.
Avanços insuficientes diante da persistência dos combustíveis fósseis
Apesar dos progressos, o ritmo da mudança é considerado lento. Os combustíveis fósseis ainda respondem por mais de 80% da energia mundial, e as emissões relacionadas à energia atingiram um recorde em 2024. As 100 maiores empresas de petróleo e gás do mundo estão projetadas para produzir 150% mais combustíveis fósseis até 2040 do que seria compatível com a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C, conforme o Acordo de Paris. Os subsídios governamentais a combustíveis fósseis dobraram desde 2016, alcançando 6,2 trilhões de dólares, com dez países destinando mais recursos a esses subsídios do que a todos os seus sistemas de saúde em 2024.
Romanello compara os novos investimentos em combustíveis fósseis a apostar em uma tecnologia ultrapassada, como a Blockbuster na era do streaming. Paralelamente, faltam recursos para a adaptação dos sistemas de saúde aos impactos climáticos. Países em desenvolvimento estimam necessitar de cerca de 3,3 bilhões de dólares anuais para adaptação, valor que é apenas parcialmente atendido, com apenas um terço do montante investido em 2024. Reduções na ajuda internacional, lideradas pelos Estados Unidos e Alemanha, acentuam essa lacuna.
Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e presidente do conselho do Lancet Countdown, conclui que “o que está faltando não são evidências, mas vontade política para agir”. A declaração reforça o apelo dos cientistas por um reconhecimento formal da crise climática como uma emergência de saúde global, exigindo uma resposta urgente e coordenada.
