Proposta de Flávio Bolsonaro de replicar o modelo do Einstein no SUS é vista como irrealista por especialistas.
A declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre a intenção de transformar o Sistema Único de Saúde (SUS) no padrão do Einstein Hospital Israelita, feita durante um debate presidencial, gerou críticas de especialistas em saúde pública. Segundo eles, a proposta é fantasiosa, ignora as diferenças estruturais e a abrangência constitucional do SUS, e pode inflamar os usuários contra o sistema público, além de sinalizar uma abertura para a privatização.
O Einstein, frequentemente reconhecido entre os melhores hospitais do país, opera sob um modelo distinto do SUS, que tem o dever constitucional de garantir acesso universal, integral e equitativo à saúde para todos os brasileiros. Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo apontam que a comparação é falha e que a proposta, sem detalhes sobre sua viabilidade, soa como um aceno à saúde privada.
A campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu aos contatos da reportagem para comentar a proposta. As informações foram reunidas a partir de reportagem da Folha de S.Paulo.
Diferenças fundamentais entre o SUS e hospitais privados
Para Gonzalo Vecina Neto, sanitarista e um dos idealizadores do SUS, a comparação entre o sistema público e um hospital privado como o Einstein é inviável. Ele ressalta que o Einstein atende a um público específico, com foco em retorno financeiro, enquanto o SUS tem a responsabilidade de cobrir 100% da população em todas as suas necessidades de saúde, da prevenção ao tratamento.
“Uma coisa é o que o Einstein faz, um hospital privado que atende quem o busca. Outra coisa é o SUS, um sistema de saúde universal que atende 100% da população em hospitalização, prevenção e tratamento. Uma fala nesse sentido revela a ignorância acerca do funcionamento do sistema de saúde”, afirma Vecina Neto. Ele acrescenta que hospitais de excelência como o Einstein atendem a um nicho, geralmente de alta renda, e que sua aplicação direta no SUS seria um desastre.
Marilia Louvison, médica sanitarista e professora da USP, reforça que a proposta é fantasiosa também sob a ótica do financiamento. Segundo ela, replicar o padrão Einstein exigiria investimentos muito além da capacidade de financiamento atual do SUS, especialmente diante de promessas de corte de despesas. “Não tem como aumentar o padrão e cortar ao mesmo tempo”, declarou.
Repercussões e a importância do SUS
A declaração de Flávio Bolsonaro ganhou ainda mais destaque com a recuperação de um vídeo em que Cláudio Lottenberg, médico cotado para um eventual Ministério da Saúde em um governo Bolsonaro, sugere que não haveria mais investimentos no SUS caso os recursos já disponíveis fossem melhor alocados. Lottenberg, contudo, esclareceu que sua fala foi fragmentada e defende um SUS fortalecido, com foco na atenção primária e na gestão do cuidado, preservando a responsabilidade pública e a segurança do paciente.
Apesar das justificativas de Lottenberg, especialistas como Vecina Neto veem a narrativa como uma tentativa de elevar a clientela dos hospitais privados. Ele compara a complexidade do SUS com sistemas de saúde de outros países, como os Estados Unidos e o Reino Unido, para ilustrar os desafios de estruturar um sistema universal, mesmo para economias mais ricas.
Louvison alerta que a comparação com o Einstein pode criar expectativas irreais nos usuários do SUS e, consequentemente, desestimular a confiança da população no sistema público. Ela destaca que o SUS vai além do atendimento hospitalar, englobando saúde preventiva, vigilância sanitária (Anvisa), atendimento de urgência (Samu), financiamento de pesquisas e atendimento a comunidades remotas e em situações de emergência. “Os hospitais do SUS têm suas dificuldades, mas conseguem atender a maior parte das demandas da sociedade brasileira. Não é um padrão de hotelaria que define a qualidade”, conclui.
